terça-feira, 29 de julho de 2008

Sexiest Stormtroopers





Nós mudamos

Delfim Netto

Nos idos das décadas de 50 e 60, boa parte do pensamento econômico brasileiro estava ligada ao que se chamava “escola estruturalista”, patrocinada pela Cepal. De acordo com ela, uma das razões mais importantes para explicar o processo inflacionário crônico na América Latina era a resposta ineficiente da produção agrícola aos estímulos dos preços. No processo de industrialização e urbanização, a demanda por alimentos dependia do crescimento da população, do aumento da renda per capita e da sua própria elasticidade em relação à renda. Como os países eram fechados, se a oferta interna não acompanhasse o aumento da demanda, os preços subiriam, produzindo um processo inflacionário, porque o desequilíbrio se perpetuava quando a política monetária sancionava os reajustes de salários para compensá-los.

Na FEA/USP desenvolveu-se um longo trabalho que procurava demonstrar a falsidade dessa suposição. Seu enterro definitivo foi feito com cuidado pelo professor Affonso Celso Pastore, na sua tese de doutoramento de 1968, A Resposta da Produção Agrícola aos Preços no Brasil, que, com justiça, tornou-se um clássico da literatura econômica nacional. A principal conclusão que vale a pena transcrever nos informa que a análise levou “à rejeição da hipótese de comportamento irracional dos agricultores. A investigação empírica realizada mostrou que não existem razões para rejeitar a hipótese de que os agricultores no Brasil tomam suas decisões sobre “o que” e “quanto” produzir através de critérios próximos ao da maximização dos lucros”. Os últimos 40 anos confirmaram continuadamente tal proposição.

Neste mês de julho, a faina agrícola da produção de grãos no Brasil está encerrada. As estimativas de área plantada e produção realizadas pelo IBGE e pela Conab (agora coordenadas) podem ser consideradas praticamente definitivas. Os resultados estão na tabela.

Os números confirmam a olho nu as conclusões do professor Pastore: dentro das condições tecnológicas admissíveis, os preços relativos dos produtos determinaram o comportamento dos agricultores. A tabela revela que a produtividade do setor segue crescendo. Com relação ao uso da terra, foi de 5,9% na safra que agora se encerra, a mostrar que a tecnificação e o uso de insumos modernos permanecem, apesar dos custos exorbitantes impostos pelo aumento dos preços do petróleo.

Nada poderia demonstrar melhor o fato corriqueiro de que “não existe almoço grátis na economia” do que a grande evolução da nossa agricultura. Se continuássemos um país fechado, não teríamos hoje qualquer problema com os preços dos alimentos. Em compensação, seríamos muito mais pobres. Vivemos uma pressão inflacionária vinda dos produtos agrícolas porque hoje estamos abertos ao comércio internacional. Somos grandes exportadores e importadores com uma comercialização razoavelmente livre. Nossos preços internos refletem as condições de oferta e procura do mercado mundial transmitidas pela taxa cambial.

A exceção que confirma a regra é o problema que tivemos com o produto mais idiossincrático do consumo brasileiro, o feijão. A Conab nos informa que a diminuição da sua área plantada na primeira safra (outubro/dezembro de 2007), de 15,8% (da produção de 19,9%), ocorreu em razão dos “baixos preços do produto na safra passada e da redução da produtividade”, causados por fenômenos climáticos (estiagem prolongada e baixa temperatura). A produção recuperou-se na segunda safra de feijão colhida a partir de março de 2008, que cresceu 38,2%, e na terceira, ainda sendo colhida, que aumentou 0,8%.

A nova política agrícola deve ajudar a expandir a produção nacional, particularmente a agricultura familiar, mas temos de entender que não são mais a demanda e a oferta internas que determinam o custo da alimentação no Brasil. Ele é estabelecido por preços fixados pela demanda e pela oferta mundiais e internalizado por meio da taxa de câmbio. Esta, desde 2006, tem sido desastradamente supervalorizada para controlar artificialmente a taxa de inflação.

R.E.M. - Losing My Religion

REM Man on the Moon!

A próxima crise pode ser muito pior

29 de Julho de 2008 - Quer dizer que o grande projeto de lei para o setor imobiliário foi aprovada no congresso. Ótimas notícias: a Fannie e Freddie tiveram que ser salvas e outra importante cláusula desta lei - um programa especial de empréstimos que busca impedir execuções de hipoteca - ajudará algumas famílias que vivem atualmente sob forte pressão. Assim, é melhor ter esta lei do que nada.
Entretanto, eu espero que ninguém ache que o Congresso já fez tudo, ou mesmo uma grande fração, do precisa ser feito.
Este projeto de lei foi a última medida de uma série de ajustes temporários pensados para o sistema financeiro - tentativas de segurar as coisas com cordas de "bungee jumping" e fitas adesivas - que têm conseguido, pelo menos até agora, nos manter longe de um completo colapso. Todavia, estes ajustes não fizeram nada para resolver as falhas fundamentais do sistema. Na verdade, eles preparam o terreno para desastres futuros ainda maiores - a não ser que eles sejam seguidos por reformas básicas.
Antes de abordar este tema, vamos esclarecer uma coisa: ainda que os objetivos desta lei sejam alcançado satisfatoriamente, evitando uma severa retração de crédito e ajudando alguns donos de imóveis a escapar de uma execução hipotecária, ela não mudará o fato de que as duas bolhas desta década - nos preços do imóveis e na facilitação dos empréstimos - representaram um desastre na vida de milhões de americanos.
Afinal de contas, a nova lei terá um impacto pequeno sobre os números de hipotecas executadas. E ela não faz absolutamente nada por aqueles que não correm o risco de perder seus imóveis, mas estão vendo a maior parte do seu patrimônio líquido, senão todos, indo embora - um golpe especialmente amargo na vida daqueles que se aproximam da aposentadoria, ou aproximavam-se até perceber que poderiam dar-se o luxo de parar de trabalhar.
É tarde demais para evitar esta dor. Porém, nós podemos procurar evitar que novas e maiores crises apareçam no futuro.
A história que desembocou na crise atual está marcada pela maneira como tradicionalmente os bancos - bancos com depósitos garantidos pelo governo e que são obrigados a obedecer certos limites no que se refere aos riscos e à alavancagem financeira que podem assumir - têm sido colocados de lado pelos agentes financeiros que não seguem nenhuma regulamentação. Pessoas como Alan Greespan nos haviam assegurado que isso não era problema: o mercado iria disciplinar os riscos e, de qualquer forma, os fundos dos contribuintes não seriam comprometidos.
Aí sofremos um choque de realidade.
Longe de terem seus riscos disciplinados, as instituições de crédito enlouqueceram. As preocupações acerca da capacidade dos tomadores de empréstimo de saldarem suas dívidas foram deixadas de lado; assim como a discussão sobre a pertinência da alta nos preços no setor imobiliário.
Estas instituições ignoraram os sinais de alerta porque são parte de um sistema centrado no princípio de que alguém sempre sai ganhando. As companhias hipotecárias não se preocuparam com a solvência dos tomadores de empréstimos porque eles rapidamente repassaram os empréstimos feitos, em geral para investidores que não faziam a menor idéia sobre o que estavam adquirindo. Em todo o sistema financeiro, executivos receberam enormes bônus como se fossem grandes lucros, mas não tiveram que devolvê-los estes lucros transfomaram-se em perdas ainda maiores.
E a questão do dinheiro dos contribuintes não estar em risco? Não importa. Ao longo do último ano o Federal Reserve (Fed, BC dos EUA) e o Tesouro dos Estados Unidos utilizaram centenas de bilhões de dólares dos contribuintes para ajudar instituições financeiras consideradas grandes demais ou estratégicas demais para fracassarem. (Eu não os culpo - acredito que não havia mesmo outra alternativa.)
Enquanto isso, os bancos tradicionais e regulados tiveram um papel menor no furor dos empréstimos, exceto no setor onde não havia regulamentação, leia-se, as subsidiárias "fora do balanço". O caso da IndyMac - que faliu uma vez que especializou-se em empréstimos de alto risco (do tipo Alt-A) ao mesmo tempo em que os reguladores fingiram não ver nada de errado - é a exceção que comprova a regra.
A moral desta história parece clara - e trata-se do que Barney Frank, chairman do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara de Deputados, vêm afirmando já há algum tempo: a regulamentação financeira precisa ser expandida para cobrir um leque maior de instituições. Basicamente, a estrutura financeira criada na década de 30, que trouxe uma estabilidade relativa para diversas gerações, precisa ser atualizada para as circunstâncias do século XXI.
Os esforços desesperados de socorro do ano passado deixam a regulamentação mais expandida muito mais urgente. Se o governo for ficar por trás das instituições financeiras, seria melhor que essas instituições fossem cuidadosamente reguladas – porque, do contrário, o jogo de, cara, eu ganho, e, coroa, você perde, vai ser jogado com mais fúria do que nunca, às custas dos contribuintes.
Claro que os defensores da regulamentação expandida, não importa o quão convincentes sejam seus argumentos, vão ter de brigar com a oposição muito bem financiada advinda da indústria financeira. Como Upton Sinclair apontou, é difícil fazer que um homem entenda algo quando seu salário – ou, poderíamos acrescentar, seu dinheiro de campanha guardado para eventuais contratempos – depende de ele não entender esse algo.
Mas esperemos que a escala total desta crise financeira tenha conseguido concentrar cérebros suficientes para tornar a reforma possível. Caso contrário, a próxima crise será ainda maior.
Paul Krugman - The New York Times

‘Não faremos nada em relação ao dólar’, diz Miguel Jorge

São Paulo, 29 de Julho de 2008 - Após ter anunciado algumas iniciativas que se mostraram inócuas para segurar o câmbio e ajudar o exportador brasileiro, o governo parece ter se rendido ao fato de que o movimento de valorização do real frente ao dólar é mais forte do que supunha. O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, afirmou que não pensa em tomar mais medidas para conter o movimento. "Não faremos nada em relação ao dólar", disse ao sair de evento promovido pelo Instituto Brasileiro dos Executivos de Finanças (Ibef).
De acordo com o ministro, a despeito da melhora na classificação de risco do País -desde maio o Brasil foi elevado a grau de investimento por duas agências de rating - e do ciclo de alta da taxa básica de juros, a Selic, até o momento, não foi observado aumento significativo no ingresso de dólares, que fossem o motivo claro para elevar a cotação do real.
Além disso, afirmou, as exportações estão indo muito bem. Dados divulgados ontem pelo ministério mostram que as vendas ao exterior somaram US$ 5,431 bilhões na quarta semana de julho, valor recorde semanal. As importações totalizaram US$ 3,993 bilhões. Dessa forma, houve superávit comercial de US$ 1,438 bilhão, o segundo melhor do ano atrás da segunda semana de maio (US$ 1,471 bilhão).
No mês, até o dia 27 de julho, os embarques chegaram a US$ 17,275 bilhões com média diária de US$ 909,2 milhões, número 41,7% maior na mesma medição de mesmo mês de 2007 (US$ 641,8 milhões). Impulsionados pelo preço em alta das commodities, o valor exportado de produtos básicos cresceu 71,4% e o de semimanufaturados, 59,5%. Já o de manufaturados, cuja pauta também tem itens influenciados pelas cotações internacionais, como álcool e óleos combustíveis, apurou elevação de 14,7%.
Os desembarques totalizaram US$ 13,848 bilhões ante US$ 10,776 bilhões apurados em igual período do ano passado. A média diária foi US$ 728,8 milhões, com alta de 48,8% sobre mesma etapa de 2007 (US$ 489,8 milhões).
Ao ser questionado sobre a queda consecutiva do valor do superávit comercial, Jorge respondeu não ver problema nisso, pois "o saldo deve ver o máximo possível o comércio equilibrado". Seguindo uma tradição iniciada por seu antecessor, Luiz Fernando Furlan, Jorge não quis fazer projeção para o saldo comercial neste ano. Porém disse acreditar ser bem factível a expectativa de US$ 23,15 bilhões da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).
Para Miguel Jorge, com exceção do preço do petróleo, que é muito influenciado pela especulação, é improvável que as cotações das commodities apresentem recuo significativo a ponto de reverter a situação atual das exportações. "Pode haver pequena queda (do preço) ou se manter no patamar atual, pois as pessoas na Índia e na China vão continuar comendo", afirmou, complementando que o Brasil tem agricultura mais eficiente e competitiva do mundo e poucos podem concorrer. "Por isso, muitos países não nos deixam entrar".
Doha
Miguel Jorge defendeu a assinatura de acordo, mesmo que modesto, entre os países que participam da Rodada Doha. "Assinar um acordo menos ambicioso é melhor do que não assinar nenhum".
Jorge defendeu o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, das acusações traição: "Duvido que Amorim, que tem boas relações com os ministros indiano, Kamal Nath, e argentino, Jorge Taiana, faça algo sem falar com parceiros", disse, lembrando que o Brasil não tem tradição diplomática de fazer qualquer movimento sem negociar antes.
Simone Cavalcanti

País registra US$ 2,6 bi de déficit em conta-corrente em junho

Brasília, 29 de Julho de 2008 - As transações correntes, um dos principais indicadores das contas externas, apresentaram no primeiro semestre o pior resultado desde o início da série histórica do Banco Central do Brasil (BC), em 1947. Puxadas pelas remessas de lucros e dividendos de empresas com sede no exterior, pela queda do superávit da balança comercial e pelo aumento dos gastos de brasileiros no exterior, o déficit atingiu, em junho, US$ 2,596 bilhões, após registrar superávit de US$ 539 milhões em igual mês do ano passado.
O resultado do mês contribuiu para que o déficit no primeiro semestre chegasse a US$ 17,402 bilhões ou 2,51% do Produto Interno Bruto (PIB). É a primeira queda para o período de seis meses desde 2002, quando o déficit foi a US$ 8,3 bilhões, segundo a nota do Setor Externo, divulgada ontem. O resultado negativo reverteu o superávit de US$ 2,413 bilhões apurado no mesmo semestre de 2007, o equivalente a 0,38% do PIB.
Apesar de permanecerem elevados, os investimentos estrangeiros diretos (IED), que totalizaram US$ 16,702 bilhões (2,41% do PIB) no semestre, foram insuficientes para cobrir o rombo das contas, segundo o relatório da autoridade monetária. A cifra apresentou arrefecimento em relação aos US$ 20,852 bilhões (3,28% do Produto) obtidos em igual período do ano anterior.
O chefe do departamento econômico do Banco Central, Altamir Lopes, afirmou que a tendência é de que o IED compense esta queda no fechamento do ano. Os investimentos estrangeiros diretos devem chegar a US$ 35 bilhões e ultrapassar o déficit em transações correntes previsto em US$ 21 bilhões.
Este comportamento, comentou Lopes, já é observado nos dados dos últimos 12 meses, até junho, quando o IED acumulou US$ 30,4 bilhões, cifra considerada "suficiente" para cobrir o déficit em conta-corrente que atingiu US$ 18 bilhões no mesmo período – equivalente a 1,38% do PIB, abaixo da média histórica de 1,75% do Produto, desde 1947.
Lopes afirmou que o resultado em conta-corrente, apesar de negativo, "não é tão ruim". Segundo ele, no ano passado, quando o indicador ficou superavitário em 0,13% do PIB, o desempenho foi "bem melhor" do que o de países que têm risco semelhante ao Brasil. Citou os exemplos da Índia e México, ambos com déficit de 1,2% e 0,5%, respectivamente.
Apesar da piora das transações correntes, que têm um histórico deficitário, Lopes diz acreditar que houve uma "mudança na estrutura" do rombo do indicador, constituído pela balança comercial, serviços e de transferências unilaterais. "Hoje é mais sustentável." Até então, declara Lopes, o déficit era relacionado ao pagamento do juro da dívida externa, que caiu e "deixou de ser um problema".
Puxado pelo déficit de transações correntes, o balanço de pagamentos do País – que abrange todas as operações financeiras do Brasil com o exterior – apresentou superávit de US$ 19,2 bilhões no semestre, cifra inferior aos R$ 61,6 bilhões apurados em igual período do ano passado.
Para Lopes, o resultado negativo das transações correntes reflete a melhora da atividade econômica, que permite às empresas multinacionais instaladas no Brasil enviar lucros e dividendos às suas sedes no exterior. Tal resultado coincide com a queda do superávit da balança comercial de US$ 20,577 bilhões, entre janeiro e junho de 2007, para US$ 11,349 bilhões até junho deste ano.
Segundo os dados do Banco Central, as remessas de lucros e dividendos praticamente dobraram entre os primeiros semestres de 2007 e de 2008, quando saíram de US$ 9,807 bilhões para US$ 18,993 bilhões. Na comparação mensal, os valores remetidos ao exterior subiram de US$ 1,746 bilhão para US$ 3,396 bilhões, em junho deste ano.
Lopes acredita que haverá uma provável "acomodação" das remessas de receitas de empresas ao exterior a médio prazo. Em junho, até ontem, somavam US$ 2,6 bilhões. A estimativa da autoridade monetária é de que o montante feche o ano em US$ 29 bilhões, acima dos US$ 22,435 bilhões em todo o ano passado. Os setores que mais remetem lucro são os de automóveis, construção civil e financeiro.
Com o dólar baixo em relação à moeda nacional, as viagens de brasileiros ao exterior registraram déficit recorde de US$ 2,635 bilhões no semestre, resultado gerado pelas despesas "inéditas" de US$ 5,534 bilhões e receitas de US$ 2,899 bilhões. A tendência é de que os gastos se mantenham em julho em razão do período de férias. Neste mês, até ontem, o déficit já era de US$ 711 milhões, quase o dobro de todo o mês de junho, de US$ 353 milhões.
Para Lopes, o comércio externo brasileiro tende a voltar a apresentar um ritmo normal, com saldos maiores. Sem mencionar prazo, ele argumenta que as importações tendem a se acomodar no médio prazo, pois as compras de bens de capital devem chegar a um limite. Para ele, as exportações brasileiras ainda apresentam taxa "bastante razoável", de 24%. Mas as importações crescem 51%.
Viviane Monteiro

FMI diz que fim de crise nos EUA não está visível

Washington, 29 de Julho de 2008 - O Fundo Monetário Internacional (FMI) informou que não há fim à vista para a recessão do setor imobiliário dos Estados Unidos e alertou que a deterioração das condições de crédito para consumidores e bancos poderá prolongar um período de desaceleração no crescimento econômico.
"No momento, não há um fim visível para a crise do mercado imobiliário residencial", disse o FMI em seu Global Financial Stability Report, divulgado ontem em Washington. "Conter o declínio do mercado imobiliário dos EUA é algo necessário para a estabilização do mercado, uma vez que isso ajudaria consumidores e instituições financeiras a se recuperar."
O FMI, que um ano atrás não foi capaz de prever a profundidade do colapso do setor de empréstimos de alto risco (subprime), manteve sua previsão de abril passado, segundo a qual seria registrado cerca de US$ 1 trilhão em prejuízos gerados pela crise do setor de crédito imobiliário dos EUA. Apesar de os responsáveis pela política monetária dos EUA terem ajudado a conter os prejuízos financeiros, "os riscos relativos ao crédito se mantêm elevados" e os bancos precisam levantar mais capital.
As baixas contábeis e os prejuízos registrados mundialmente totalizaram US$ 469 bilhões nos últimos 12 meses, e US$ 345 bilhões em capital foram levantados para conter a crise.
O FMI, sediado em Washington, disse em seu relatório que as decisões do Federal Reserve (Fed, BC dos EUA) de estender seus empréstimos a empresas de Wall Street "foram bem-sucedidas em conter os riscos sistêmicos". Ainda assim, o enfraquecimento do setor imobiliário ameaça ampliar a crise.
"O receio crescente é que, com a inadimplência e as execuções de hipotecas aumentando de forma acentuada no mercado imobiliário dos EUA, e com a queda continuada nos preços das residências, a deterioração do crédito esteja ficando mais disseminada."
A queda nos preços das ações está dificultando o levantamento do capital por parte dos bancos, o que eleva o risco de uma espiral de desaceleração na economia mundial, disse o FMI. As perspectivas para os bancos poderão fazer com que os investidores fiquem relutantes em fornecer novos recursos para restabelecer a força das instituições financeiras, disse o fundo.
"À medida que o crescimento da economia desacelera, os bancos terão de enfrentar ventos contrários continuados que impedirão a manutenção de seus lucros devido à queda na qualidade do crédito, ao recuo da receita gerada pelas tarifas, aos altos custos de financiamento e à exposição a seguradoras de empréstimos imobiliários e a monolinhas (seguradoras de bônus)", disse no comunicado Jaime Caruana, diretor da divisão de mercados monetários e de capital do FMI.

Juros e sustentabilidade da aceleração do crescimento

O Banco Central decretou, na semana passada, que a aceleração do crescimento não é sustentável no Brasil. Ao elevar a taxa de juros ainda mais, e acima do esperado, exatamente no momento em que a taxa de inflação corrente e os preços das commodities começaram a recuar, surpreendeu muita gente, e só teremos explicações ou informações que o mercado não tem nesta quinta-feira. Uma coisa é certa: com o aumento adicional do diferencial da taxa de juros doméstica em relação à internacional, o fluxo de capitais já está respondendo, e já tivemos e teremos apreciações adicionais da taxa de câmbio. Com isso, comprometemos a atual aceleração do crescimento e estamos trazendo para um futuro menos longínquo os problemas no setor externo que já eram esperados. O aspecto mais relevante da decisão do Banco Central é que ela mostra que somos incapazes de alongar o horizonte temporal das decisões de política econômica, e também que não temos ainda um regime de política macroeconômica compatível com crescimento acelerado e sustentado por longo período.

O Banco Central poderá não explicitar, mas o que está decretado é que o crescimento do nosso "produto potencial" é inferior à atual taxa de cerca de 4,5% ao ano, trajetória de crescimento do PIB dos últimos anos. Mais do que isso, como o BC está preocupado com a trajetória da taxa de juros, ao acelerar o seu ritmo de elevação está sinalizando que manterá o mesmo na próxima reunião do Copom, pois não seria lógico descontinuar a trajetória. E a razão para aumentar a taxa de juros é frear o crescimento da demanda agregada, supondo que aquela variável tenha efeitos sobre esta última, certamente com defasagem, e com isso reduzir a taxa de inflação, trazendo-a para o centro da meta.

Há duas inconsistências básicas na nossa política macroeconômica. Primeiro, ao aumentar a taxa de juros, instrumento de curto prazo, para controlar a inflação, comprometemos o longo prazo, o crescimento da economia. Para elevar a taxa de crescimento do "produto potencial", é preciso aumentar a taxa de investimento - assim ampliamos a capacidade produtiva, incorporamos as inovações tecnológicas e aumentamos a produtividade. No mundo real, é difícil imaginar que subitamente o produto potencial possa ser ampliado a taxas mais elevadas sem ampliar os investimentos, a não ser que inovações tecnológicas e aumento de produtividade surjam por geração espontânea ou caiam do céu por divina providência.

Para ampliar a taxa de investimento em relação ao PIB é preciso que existam algumas condições. Duas são essenciais: expectativa positiva de retorno e suprimento de crédito e financiamento a custos competitivos. A elevação da taxa de juros pelo BC tem impactos negativos sobre ambas. Uma trajetória ascendente de juros, se a política monetária for eficaz, desacelerará o crescimento da demanda e ampliará a capacidade ociosa da economia, e portanto sinalizará aos empresários um futuro sombrio, com menores vendas, maior capacidade ociosa e lucros menores. E exatamente a política monetária só será eficiente e eficaz se a taxa de investimento recuar, pois ela própria é parte integrante da demanda agregada, e sabidamente o outro componente, o consumo das familias, é muito mais estável e depende também de outras variáveis que não a renda contemporânea. Da mesma forma, a elevação da taxa de juros só será eficaz se conseguir contrair a oferta de créditos e financiamento ou desestimular a sua demanda em função do seu encarecimento para contrair os investimentos.

Assim, a primeira grande inconsistência não está na busca, pela política monetária, simultaneamente de baixa taxa de inflação e crescimento acelerado e sustentado ao longo de muitos anos. Está, sim, no patamar inicial muito elevado da taxa de juros no Brasil, uma anomalia especificamente brasileira que fez com que o patamar da taxa de investimento produtivo seja muito baixo, de cerca de 18% do PIB, enquanto a média dos países emergentes alcança 25% do PIB. Assim, não é a elevação da taxa de juros em si, mas o seu patamar excessivamente elevado, que gera a inconsistência da política monetária com o crescimento acelerado da economia.

A segunda inconsistência básica da política monetária se refere ao fato de a elevação do diferencial da taxa de juros doméstica em relação à taxa internacional provocar o afluxo de capitais especulativos para capturar momentaneamente este diferencial. Isto, por sua vez, provoca inevitavelmente uma apreciação da taxa de câmbio, como está acontecendo neste momento, com duas consequências perversas. Primeira, a apreciação cambial aumenta o retorno do especulador, estimulando mais ainda o afluxo de novos capitais, trajetória que pode ser interrompida subitamente, gerando em seguida um movimento contrário de realização do lucro com saída de capitais, o que leva à depreciação da taxa de câmbio, que por sua vez traz de volta a inflação comida pela apreciação. Dada a integração do mercado financeiro, enquanto o diferencial de taxas de juros estiver aumentando, e com isso o fluxo de capitais, aumenta a oferta de crédito internacional, desfazendo o impacto da elevação da taxa de juros doméstica no sentido de contrair a liquidez doméstica.

A segunda consequência é que a apreciação da taxa de câmbio desestimula as exportações, com impactos negativos na taxa de crescimento e na taxa de poupança da economia. Na sua essência, o processo de crescimento é um processo de "catch up" tecnológico que se dá pelo canal do comércio por meio de sua ampliação, isto é, pela maior abertura comercial da economia. Maiores importações são o caminho de menor custo para internalizar as inovações e se aproximar da fronteira tecnológica, e exportar mais e tornar-se competitivo é a melhor escola para aprender e desenvolver capacidade interna de inovar. Só que, ao longo dos anos, somente com a ampliação das exportações é possível importar mais. Assim, qualquer política que estimule a apreciação da taxa de câmbio compromete o processo de crescimento no longo prazo. Recorrer à poupança externa via déficit em transações correntes e endividamento comprovadamente não foi o caminho percorrido por aqueles que conseguiram fazer o "catch up".


Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP

Exagero

Delfim Netto

Do ponto de vista econômico, o Brasil mudou (e para melhor) desde 1994, quando se iniciou o bem-sucedido Plano Real. Do ponto de vista político-social a mudança (também para melhor) já havia começado com a Constituição de 1988. Ela talvez tenha sido muito generosa, o que tem exigido um aumento de carga tributária que certamente não estimula o crescimento. Em compensação, tem permitido um processo redistributivo que dá aos cidadãos o sentimento de que cresce a igualdade de oportunidade, condição necessária para a ratificação e continuidade, nas urnas, de uma boa política econômica.

Os principais indicadores mostram que somos hoje uma economia normal. Nos últimos três anos registramos: 1) um crescimento médio do PIB de 4,1%; 2) uma taxa média de inflação de 4,4%; 3) um saldo médio em conta corrente de US$ 9,8 bilhões (1% do PIB); e 4) uma redução anual da relação dívida/PIB de 1,3%. Em 2007 crescemos 5,4%, com uma inflação de 4,5% e com um saldo em conta corrente ligeiramente positivo (0,1% do PIB). São todos sinais vitais de uma economia que se prepara para crescer robustamente. O fator que destoa desse quadro é a nossa teratológica taxa de juro real. Ela é há muitos anos a campeã ou vice das quantas que vigem no mundo civilizado. A figura abaixo mostra a barbaridade.

A única explicação plausível para esse fato - que nega todas as mais sofisticadas, que acabam não sendo "explicações", mas apenas "justificações" - é que, num ato de desespero diante de uma crise externa, escolhemos um arriscado mecanismo de financiamento da dívida interna, que nunca mais tentamos seriamente corrigir. Tudo muito ligado à oportunista valorização do câmbio de 1995-1998 (com taxas de juros reais de 20% ao ano!) para a redução da taxa de inflação. É esse extravagante nível da taxa de juro real que torna problemática a nossa política monetária.

Estamos agora diante de uma inflação planetária produzida pela conjugação de vários fatores: 1) uma enorme desvalorização da unidade de conta do comércio internacional, o dólar americano; 2) uma expansão dos emergentes (China, Índia e seus satélites), facilitada pelo próprio déficit em conta corrente dos EUA, que desequilibrou a oferta e a procura mundiais de alimentos, metais e petróleo e elevou seus preços; e 3) uma política monetária laxista dos bancos centrais dos países desenvolvidos que, além do mais, não controlaram a imoralidade implícita nos incentivos construídos pelas sofisticadas inovações do seu sistema financeiro. A inflação planetária é confirmada pela tabela abaixo, onde se revela a taxa de inflação anual média entre 1996 e dezembro de 2006, comparada com a de janeiro de 2007 a maio de 2008 em países desenvolvidos, que representam mais de 50% do PIB mundial. Como a inflação é global, é claro que seu controle exigirá um compromisso entre todos os bancos centrais.

É preciso lembrar que o Brasil beneficiou-se largamente de sua integração mundial e que, portanto, o preço dos seus bens transacionáveis são fixados no mercado internacional e internalizados pela taxa de câmbio flutuante. Quando a taxa de juros real interna é parecida com a internacional, esse mecanismo é bastante razoável. A inflação de hoje em um país particular é em parte "importada", mas pode também ser adicionalmente (ainda que não necessariamente), estimulada por um excesso de demanda interna. Isso torna mais difícil e delicada a tarefa de um Banco Central responsável, que precisa manter a taxa de inflação dentro da "meta" sem desatentar para as conseqüências do seu excesso de zelo sobre o nível de atividade produtiva, do emprego e do equilíbrio fiscal, que no Brasil é cada vez mais precário.

Tudo bem considerado e ponderado, não parece impróprio questionar como extravagante o recente aumento da nossa taxa Selic em 75 pontos. Ele pareceu mais o resultado de uma necessidade infantil de afirmação de independência da autoridade monetária, estimulada pelas espertas "tesourarias" que a candongam. Se há dúvidas sobre tal demonstração para reforçar uma falsa "credibilidade", não há dúvida sobre seu objetivo: aprofundar a já desastrosa valorização do real. É apenas o mesmo expediente oportunístico de controlar a taxa de inflação à custa da higidez do sistema produtivo e do futuro equilíbrio fiscal. Diante de tanta incerteza, a virtude exigiria um pouco mais de paciência e conservadorismo: 50 pontos estaria de bom tamanho, até que os outros bancos centrais explicitem o que vão fazer...


Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

Minha lista de blogs