terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Os governos precisam gastar

Carlos Alberto Sardenberg

Isto aconteceu no Japão, na longa recessão dos anos 90: a taxa de juros foi a zero, de modo que deixar o dinheiro aplicado no banco era perder dinheiro. Nessa situação, estava claro que o consumidor estaria propenso a comprar alguma coisa - um carro, uma casa, qualquer coisa - que valesse mais a pena que perder dinheiro no banco.

Errado. Nem assim os japoneses gastavam. Paralisados por uma profunda crise de confiança, eles continuavam poupando, mesmo quando o governo devolvia imposto de renda. E se o consumo não dava sinais de vida, como sair da recessão?

Nesse momento, muitos economistas chegaram a uma curiosa sugestão: a saída era encher helicópteros de dinheiro e espalhar pelo país. Com dinheiro caído do céu, certamente os japoneses iriam às compras.

Esse problema nunca ocorreu nos EUA, nem mesmo nos períodos de recessão dos anos 80 e 90. É verdade que foram curtos momentos de recessão, mas o consumidor americano continuou gastando e, com freqüência, gastando mais do que ganhava. Entrava com gosto no cartão de crédito e nos carnês, estimulado por taxas de juros baixas.

Foi assim que as famílias americanas chegaram ao endividamento equivalente a 140% de sua renda, situação do momento. Faz tempo que se diz que em algum momento os americanos precisarão começar a poupar e saldar sua dívida com o resto do mundo. Isso mesmo, com o resto do mundo, pois os bancos centrais de todos os países compram títulos do Tesouro dos EUA, financiando assim os gastos do império.

Certamente não fazem isso por caridade. É por interesse. Trata-se de financiar o maior consumidor do mundo para poder continuar vendendo para ele mesmo.

Esse equilíbrio foi rompido pela crise financeira, que encolheu o crédito e aumentou os juros. Vai daí, foi o primeiro pensamento, chegou a hora de o consumidor americano finalmente aderir à poupança e viver de acordo com suas posses.

Agora, não! - gritaram todos. Essa virtude está fora de hora. Como a falta de crédito levou a economia à recessão - temendo-se uma depressão -, agora mesmo é que o consumidor precisa ir ao shopping.

Como o mundo todo está ou em recessão ou em desaceleração, a receita acabou sendo a mesma para todos os governos: tentar de todos os modos injetar recursos no sistema de crédito, forçar quedas dos juros e devolver dinheiro aos consumidores via redução de impostos.

É também o que fez o governo brasileiro com o pacote de bondades da semana passada. Mas talvez já não funcione.

Nos EUA, por exemplo, muitos analistas estão convencidos de que não vai funcionar. Desconfiam que, recebendo dinheiro do governo, via devolução de Imposto de Renda (IR), por exemplo, os consumidores estarão mais dispostos a guardá-lo. Isso porque já estão muito endividados e, sobretudo, porque temem o que a crise lhes possa trazer. Só no mês passado foram eliminados mais de 530 mil empregos, o que é uma ameaça e tanto.

Ora, como as empresas também estão limitando investimentos - ou porque não têm caixa nem crédito ou porque, tendo dinheiro, não têm confiança -, alguém precisa gastar para movimentar.

Quem?

Adivinhou! O governo. Essa é a base maior dos pacotes que estão saindo pelo mundo afora. É o princípio do programa de estímulo do presidente eleito Barack Obama, que promete investimentos em obras de infra-estrutura tão amplos quanto os da década de 50 (quando o governo americano patrocinou a construção da rede rodoviária que corta o país todo). Obama também prometeu gastos em energia verde e para pôr internet de banda larga em todas as escolas públicas do país.

Repararam? Gastos em obras e investimentos, não em custeio. A mesma coisa que anunciou o governo chinês: um monte de dinheiro público para estradas, ferrovias e também para meio ambiente e novas tecnologias. Tudo funcionando, feitos esses gastos, resulta numa economia mais competitiva, com mais produtividade.

A questão é saber se há dinheiro para isso. A China tem. Há anos o governo é superavitário nas contas públicas e nas contas externas. O governo arrecada com impostos o equivalente a 21% do PIB e gasta 20%. Pode, portanto, aumentar o gasto no equivalente a 5% do PIB. Não será difícil financiar isso, pois a dívida pública é de confortáveis 18% do PIB.

E o Brasil? Os três níveis de governo arrecadam e gastam algo como 37% do PIB. A dívida líquida do setor público é de 38%. A dívida bruta, 60%. Ou seja, aqui o governo não pode aumentar os gastos porque já gasta demais, arrecada demais, deve demais.

Por isso, aliás, a redução do IR, anunciada pelo governo na quinta-feira, foi tão pequena. Para quem ganha R$ 1.800/mês, a economia será de R$ 27 mensais, ou 1,5% da renda.

E o pior: o governo federal quase não gasta em infra-estrutura. De janeiro a outubro deste ano, os gastos totais foram de R$ 230 bilhões, assim divididos: Previdência, R$ 160 bilhões; custeio e programas sociais, R$ 106 bilhões; pessoal, R$ 102 bilhões; e em obras, R$ 20 bilhões, com PAC e tudo.

Esse foi o maior pecado do governo Lula. Pegou uma onda favorável, a arrecadação foi lá em cima e o presidente gastou a maior parte do ganho em Previdência, custeio e pessoal, neste caso elevando o número de funcionários e aumentando seus salários. Ainda agora, já com a crise aqui dentro, o Congresso aprovou um pacote de aumentos para dezenas de milhares funcionários, a serem aplicados ao longo dos próximos dois anos.

Uma última observação: o governo americano está muito mais endividado e vai aumentar os seus gastos. Só que o mundo todo está comprando os títulos do Tesouro dos EUA e, assim, financiando o déficit deles. Por quê? Confiança. O mundo todo acha que, se o capitalismo acabar, o último lugar será nos EUA. Logo, o risco de calote é zero.

Obama nos fará recuar no tempo

Amity Shlaes

Toda crise tem seus heróis. Há meses ouvimos falar de Walter Bagehot, cuja restrição, no Século XIX, à "livre" concessão de recursos em período de pânico foi mencionada pelo Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) nos seus programas de socorro. Já outro inglês, John Maynard Keynes, foi trazido para o centro das atenções. Keynes ensinou que os gastos, em especial os gastos de consumidores, são a saída de uma retração econômica. Desde os cheques de estímulo de baixo valor do verão passado nos EUA, até os projetos de infra-estrutura em consideração pelo presidente eleito Barack Obama e os democratas no Congresso, quase tudo o que o governo fez ou quer fazer é justificado por Keynes.

Isto é problemático. Isso porque as soluções de Keynes geralmente não conseguem trazer resultados benéficos, nem mesmo aceitáveis.

Os limites começam a aparecer com o menor dos estímulos, aqueles cheques do governo que os americanos receberam no correio na primavera passada. A idéia foi que a posse do dinheiro animaria os consumidores, levando-os a retomar as compras, ajudando o varejo. Isso, por sua vez, reanimaria atacadistas, transportadoras e fornecedores, numa corrente até a linha de produção.

Mas este estímulo fracassou, como observam Joel Slemrod e Matthew Shapiro, da Universidade de Michigan. Entrevistas com consumidores revelaram que apenas 20% disseram que gastariam o seu dinheiro.

As taxas de poupança monitoradas pelo Escritório de Análise Econômica pareciam confirmar isso, já que cresceram na época em que os cheques foram remetidos. Slemrod e Shapiro não ficaram surpresos. Eles passaram boa parte das suas carreiras documentando planos de estímulo fracassados. O estudo deles sobre os efeitos do plano de estímulo de 2001 de Bush foi tão desfavorável que seria razoável supor que Washington jamais o repetiria. Mas repetiu.

Um motivo para os consumidores não gastarem é que eles não reagem instantaneamente, como Keynes postulou que fariam. Eles preferem seguir a teoria de um economista muitas vezes apresentado como o anti-herói do momento: Milton Friedman. A teoria da renda permanente de Friedman afirmava que, ao irem às compras, os consumidores consideram o seu futuro todo, não só o seu estado de ânimo. Se as expectativas de rendimento para a vida inteira caem, o mesmo acontecerá com os gastos. Esse comportamento também acompanha a realidade. Muitos de nós estão começando a se perguntar se algum dia conseguiremos recuperar o que pagamos por nossas moradias.

O que dizer, no entanto, sobre o plano de estímulo mais amplo, do tipo que o presidente eleito Barack Obama está considerando? A idéia é ressuscitar o "New Deal" de Franklin D. Roosevelt e gerar postos de trabalho por meio da construção de novas pontes ou estradas. Obama também mencionou um tipo de corpo civil para os jovens que, se você entende o sentido, poderia estar envolvido em alguns destes projetos. Isso deriva do New Deal e do Corpo Civil Conservacionista de Roosevelt.

Os keynesianos diriam que essas iniciativas farão a economia retornar à vida, gerando empregos e substituindo a infra-estrutura em frangalhos.

Outros argumentariam que os ganhos de produtividade que seriam obtidos com um programa de infra-estrutura também são consideráveis. Esta é a opinião do estudioso Alexander Field, que estudou o "New Deal" e concluiu que o setor privado se beneficiou enormemente dos seus projetos de construção. Afinal, quando o governo fornece uma ponte do ponto A e do ponto B, a transportadora pode entregar os produtos entre A e B mais rápido. O projeto pode ser público, mas as suas conseqüências também rendem lucros.

A melhor evidência favorável ao argumento do gasto com infra-estrutura não procede de um democrata, mas sim de um republicano: o Sistema Nacional de Estradas de Eisenhower. A contradição aqui é que a ênfase sobre iniciativas do governo nos anos 1950 criou uma década monótona que reprimiu a inovação.

Além disso, precisamos perguntar: o que se perde quando Washington destina recursos a esses projetos rodoviários? Um problema é que um plano de estímulo e uma provisão de recursos são termos perigosamente similares. Algumas vezes o governo desperdiçará os seus recursos com pontes que os donos de caminhões não usarão - a nova "ponte a lugar algum".

O fato mais impressionante sobre a nova corrida para gastar é que seus defensores têm insistido em evocar o New Deal. Eles tendem a atenuar o período em que a frase "somos todos keynesianos agora" foi realmente proferida pela primeira vez: em meados da década de 1960 (proferida por Friedman, na verdade, apesar de sua intenção ter sido apenas a de dizer que todos nós trabalhamos nos termos do léxico keynesiano).

A "Grande Sociedade" daquele período foi o mais consumado experimento keynesiano, e ele não funcionou muito bem. Um exemplo é o Vista, o Corpo de Paz nacional daquele período. O Vista obteve resultados ambíguos e foi renomeado e remodelado várias vezes desde então. Seu nome por extenso, "Volunteers in Service to América" (Voluntários a serviço da América), se molda perfeitamente numa descrição dos programas para jovens que o grupo de Obama havia descrito.

Os líderes dos anos de 1970 e 1980 - Nixon, Ford, Carter, Reagan e Paul Volcker - foram obrigados a conviver com as conseqüências da Grande Sociedade. Os postos de trabalho que Keynes enfatizou debandaram: os EUA se acostumaram com elevados níveis de desemprego.

Se estivessem vivos, Bagehot e Keynes teriam se defendido. Bagehot, por exemplo, diria que ele considerava o Banco Central como um emprestador de última instância, não o emprestador de primeira instância. Keynes observaria que ele atuou num mundo com padrão-ouro, ou tentava atuar, não no nosso arranjo de câmbio-flutuante-à-exceção-da-China.

A questão importante a reconhecer é que o histórico de iniciativas adotadas em nome dos economistas é ambíguo. Tente esta frase: "Não somos todos keynesianos agora".

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Chamem o padre Luca Paciolo para exorcizar o subprime

Antoninho Marmo Trevisan

O Tratactus de Computis et Scripturis ("Contabilidade por Partidas Dobradas"), do padre Luca Paciolo, publicado em 1494, estabeleceu um conceito inexorável: para cada débito deve existir crédito equivalente. A sábia fórmula já era válida na Idade Média, quando viveu o antológico frade toscano, reconhecido como o pai da contabilidade. No contexto da sofisticada economia contemporânea, sua releitura é ainda mais pertinente: para cada aplicação de recursos é preciso haver sempre a fonte identificada.

O desrespeito ao clássico ensinamento, que os contabilistas aprendem no primeiro ano do seu curso superior, sintetiza a causa da pandêmica crise do subprime surgida nos Estados Unidos. Para um mesmo bem, representado pelo recurso aplicado na compra do imóvel, foram criadas inúmeras fontes de recursos, mas sem o necessário lastro físico. É como se fosse possível emitir uma fatura "fria", sem que a mercadoria tenha existido para tal.

Felizmente, o socorro estatal, à custa do agravamento do déficit público norte-americano e da sangria de reservas européias e asiáticas, está restabelecendo o pulso e a respiração dos sistemas financeiros e do crédito. Resta a luta contra a recessão, que, apesar de não se manifestar nos balanços do terceiro trimestre de várias economias, poderá se apresentar acentuado nos demonstrativos financeiros do último trimestre do ano.

Na recomposição dos mercados, fica dolorosa lição: o exagero da omissão estatal na regulação e fiscalização dos fluxos financeiros exige agora a mais perversa das intervenções governamentais, que é a utilização do dinheiro dos impostos para evitar o caos. Ruim dessa forma, pior sem ela.

É natural, portanto, o ceticismo global no tocante à ordem econômica prevalente nas últimas três décadas. Parece existir certa indignação ante os papéis desempenhados pelas lideranças mundiais e um desconforto quanto às políticas empregadas. Paira um quê de desconfiança sobre os atores determinantes nesse período (governos, segmentos da mídia, analistas, sistema financeiro, certificadores, consultores e determinada linha acadêmica).

É possível algum tipo de reação contra esses protagonistas pelos que se sentiram lesados e um olhar positivo aos que se apresentaram críticos dessa corrente e partidários da geração de riqueza a partir da produção. A fragorosa derrota dos republicanos nas eleições presidenciais dos Estados Unidos é o melhor exemplo desse movimento, pois o processo de retomada da economia tem forte vínculo com a política. Afinal, passa pelo restabelecimento de lideranças, esfaceladas no final melancólico do governo de George W. Bush, situado no epicentro da crise. Ademais, em todo momento sensível, o Estado assume papel relevante, induzindo o setor privado e a sociedade a não paralisarem o processo de trocas comerciais. Assim, suas intervenções assumem caráter redentor, enquanto o setor privado, avesso ao risco momentâneo, tende a um comportamento mais passivo.

No Brasil, o governo já está operando para irrigar o crédito, manter os juros em patamares que estimulem os investimentos e segurar a taxa cambial próxima de dois reais por dólar. Também deverá acompanhar o nível do desemprego e a pressão sobre os mais pobres, de modo a não se configurar a idéia de que os lucros são privatizados e os prejuízos socializados.

O fato é que há uma expectativa por soluções que minimizem os efeitos da crise mundial. Enquanto isso, prevalece o instinto de sobrevivência, e esta virtude atávica faz com que os empresários se lancem na busca de novos parceiros comerciais, busquem instituições financeiras e consultores profissionais, reconhecidos pela seriedade, tradição, senso ético e capacidade de vencer turbulências.

No universo empresarial, isso significa excelente oportunidade de prospectar novos negócios e, sobretudo, de fidelizar os relacionamentos b2b. É hora de renegociar com clientes e fornecedores. A palavra de ordem é levantar da cadeira e apresentar soluções a quem precisa. O presente teatro de operações é propício aos bons guerreiros, aqueles capazes de produzir receitas ao invés de buscar dinheiro nos ainda céticos bancos. É preciso ter em mente que há uma nova ordem econômica, na qual produtos e serviços diferentes e inovadores serão demandados. Infelizmente bons negócios podem ser abandonados e pechinchas aparecerão se bem prospectadas.

As empresas voltam-se à produção, à sua atividade-fim e à racionalidade, retomando o velho e conservador papel da tesouraria. As finanças criativas perderão terreno para a gestão contábil de recursos. Em todos os segmentos, propostas comerciais típicas de parceiros, prudentes e realistas deverão ser as vencedoras no mercado emergente da crise. Nesse contexto, terão sucesso os que exercitarem humildade e paciência para compreender, negociar, ceder e apoiar os mais aflitos.

Frade Paciolo descrevia ser comum entre os negociantes católicos medievais marcar os livros contábeis com o sinal da Cruz para afugentar o demônio. Pois bem, para exorcizar os fantasmas do subprime e livrar as empresas de suas maldições, é preciso fé e ação no trabalho e na ética, atitude gerencial focada na instabilidade e confiança nas boas práticas empresariais, incluindo a velha e boa contabilidade.

DI projeta corte de 1 ponto na Selic

Luiz Sérgio Guimarães

Os juros futuros não abandonaram a firme trajetória de baixa traçada nas três últimas semanas nem num ambiente de tensão forjado na sexta-feira pela decisão política do Senado americano de rejeitar o pacote de Bush de socorro às montadoras. Para um governo já que injetou trilhões no sistema financeiro, US$ 14 bilhões são um trocado que não fará falta a um Tesouro que está se financiando a custo perto de zero. Mesmo assim, os mercados sentiram o golpe, exceto o DI futuro da BM&F. A taxa para janeiro de 2010 recuou de 12,85% para 12,80%. A razão é que a curva futura de juros embute uma perspectiva de corte da Selic ainda bastante tímida e conservadora. Nas projeções de CDI está implícita, para o primeiro semestre do ano, uma redução de um ponto na taxa hoje congelada em 13,75% . É pouco. O economista-chefe da WAY Investimentos, Alexandre Espirito Santo, projeta para 2009 cortes acumulados entre 2 e 2,5 pontos. Esta semana repleta de indicadores relevantes sobre inflação e atividade deve se intensificar a correção de baixa dos juros futuros.

Tesoureiros e gestores concentrarão seu foco na divulgação pelo IBGE da pesquisa mensal de comércio, amanhã, e da relativa ao emprego, na sexta-feira. "Os dados de vendas no comércio e emprego vêm mostrando maior resistência, mas devem passar a refletir os impactos da crise nas próximas divulgações, ainda que em magnitude inferior à desaceleração que já é percebida na indústria. Além disso, os índices de confiança, tanto do empresário quanto do consumidor, devem seguir negativos ainda por algum tempo", diz a economista-chefe do Banco Fibra, Maristella Ansanelli, que prevê queda da Selic já na reunião de 21 de janeiro do Copom. Os indicadores de inflação devem avançar um pouco mais na definição do tamanho do repasse da alta do dólar para os preços. Por enquanto, não se nota "pass through". O IGP-10 será divulgado amanhã e o IPCA-15 na sexta-feira. Na quinta-feira, dois eventos relevantes: a publicação no site do BC da ata da reunião do Copom realizada na semana passada e a última reunião do ano do CMN. Coerente com o esforço governamental destinado a minorar os efeitos da recessão externa sobre o Brasil, o Conselho deverá manter a TJLP em 6,25%.

Alguns analistas consideram que parte importante da ata será dedicada a desfazer a má impressão causada pelo comunicado pós-Copom. Zelosos da credibilidade e da costumeira firmeza ultraconservadora do seu BC, o mercado não gostou da forma titubeante pela qual transmitiu sua decisão. O início da nota foi considerado desastroso: "Tendo a maioria dos membros do Comitê discutido a possibilidade de reduzir a taxa básica de juros já nesta reunião, em ambiente macroeconômico que continua cercado por grande incerteza, o Copom decidiu..." Para o economista-chefe do banco ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal, a "sensação que fica da leitura desse comunicado é que o BC tomou uma decisão 'envergonhada', daí a necessidade de justificá-la". No entender do economista, "iniciar um texto sobre uma decisão unânime dizendo que a maioria considerou uma decisão diferente é meio caminho para desacreditar a fortaleza dessa unanimidade". Para Leal, a preservação da palavra "tempestiva" na parte final do comunicado transmite a idéia de que, após superadas as incertezas, o ritmo de baixa da Selic será acentuado. "A trajetória dos juros é de queda e a utilização da palavra 'tempestiva' dá a entender que o movimento não deverá ser suave", observa ele.

Na área cambial, as atenções se voltam para os dados da balança comercial na segundo semana do mês, cuja importância cresceu depois que a primeira notabilizou-se negativamente por exibir o primeiro déficit (US$ 435 milhões) pós-crise, e para a nota do setor externo, no dia 19. O dólar fechou sexta-feira cotado a R$ 2,3660, uma alta de 0,89% que interrompeu seqüência de três pesadas quedas. Na semana, a moeda acumulou desvalorização de 4,55%. O dólar carece de pretexto internos para subir. Os fundos estrangeiros continuam reduzindo suas posições compradas, o governo abastecerá as empresas que não conseguem rolar suas dívidas externas e o BC se mantém especialmente vigilante e ativo: nega swaps cambiais e vende moeda à vista, tudo o que o mercado não quer.

Nos EUA, dados sobre produção industrial e inflação ao consumidor devem confirmar, esta semana, a instalação do ciclo recessivo-deflacionista que deve levar o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Fed a cortar, amanhã, em sua última reunião do ano, o juro americano pela metade. A expectativa geral é de que os fed funds recuem de 1% para 0,50%.

Estatização das montadoras americanas

Após ter investido bilhões de dólares para salvar os bancos de Wall Street, chegou a hora de o governo americano tentar salvar a indústria automotiva de Detroit. O plano que foi aprovado pela Câmara dos Representantes dos Estados Unidos ainda está sujeito ao voto do Senado e à oposição de vários republicanos. A demora na aprovação deste investimento governamental no setor decorre do fato de as três grandes montadoras americanas, General Motors (GM), Ford e Chrysler, não andarem com muita popularidade ultimamente nos Estados Unidos.

Além de fabricarem carros que não mais atraem o consumidor, que prefere os modelos asiáticos e europeus, essas montadoras apresentam estratégias bem menos competitivas do que as de seus principais concorrentes estrangeiros, inclusive aqueles com fábricas nos Estados Unidos, como BMW, Honda, Nissan e Toyota. Estas montadoras estão em sua maioria instaladas nos Estados do Sul (mais republicanos), o que também explica, em parte, o menor interesse dos membros do Congresso desses Estados em apoiar as montadoras de Michigan, onde estão sediadas GM, Ford e Chrysler.

Preocupados com os custos astronômicos dos empréstimos e investimentos recentemente concedidos aos bancos, o governo, o Congresso e o público americano têm reagido com pouca empatia aos apelos de socorro das três grandes montadoras de Detroit. É verdade que as aparições dos executivos das três companhias em jatos particulares para as audiências públicas e televisionadas do Congresso em Washington, juntamente com a falta de um plano minimamente viável de reestruturação das empresas, não foi a maneira mais elegante de estender o prato e de pedir bilhões de dólares em assistência ao já esgotado Tio Sam.

Não foram poucos os analistas que anunciaram em público preferir a falência das montadoras ao gasto de bilhões de dólares de dinheiro público sem nenhuma perspectiva viável de reestruturação das empresas. Os ambientalistas também se queixam, com justa razão, que se for para investir em um "Plano Marshall" para a indústria automotiva, que pelo menos os esforços sirvam para dar um impulso à pesquisa e ao desenvolvimento de novas tecnologias que tornariam o país menos dependente do petróleo importado do Oriente Médio.

Por outro lado, fica a impressão de que seria no mínimo injusto o governo ter investido centenas de bilhões de dólares de dinheiro público para salvar bancos de Wall Street envolvidos com operações financeiras que eles mesmos muitas vezes não entendiam, e ao mesmo tempo deixar que as montadoras de Detroit quebrem, o que acarretaria em perdas adicionais de milhões de empregos adicionais no país. Sem mencionar que ninguém quer ser responsável por uma outra megafalência ao estilo Lehman Brothers, cuja falta de assistência do governo, supostamente por não apresentar "riscos sistêmicos" ao mercado, foi o primeiro dominó que, ao cair, derrubou todos os outros com mais força.

O pacote aprovado na Câmara, que ainda depende da boa vontade do pouco entusiasta Senado, prevê empréstimos ou linhas de créditos para a GM e a Chrysler de US$ 14 bilhões, em troca de participação do governo nas empresas. A Ford informou ainda dispor de dinheiro em caixa, mas pediu uma linha de crédito preventiva de US$ 9 bilhões. O plano prevê a criação de um chamado "czar do automóvel", que seria uma autoridade designada pelo governo (o conceituado Paul Volker, ex-presidente da Federal Reserve e um dos principais conselheiros do presidente eleito Barack Obama, seria por enquanto o mais cotado) para controlar os fundos e acompanhar a reforma do setor, inclusive com direito a veto com relação a investimentos das empresas acima de um valor determinado. O projeto ainda proíbe que as empresas paguem bonificações a seus executivos ou dividendos aos acionistas enquanto estiveram em debito com o governo.

É neste quadro que, depois de ter parcialmente estatizado grande parte dos bancos de Wall Street, o governo americano se prepara, muito a contragosto, para intervir na sua indústria automotiva que já foi, até pelo tamanho de seus carros e pelo pioneirismo das fábricas da Ford em um passado não tão remoto, o símbolo do sucesso, da prosperidade e da engenhosidade do sonho americano. Se o Senado não agir antes do recesso de fim de ano, não há garantias de que a GM e a Chrysler possam esperar até a posse do futuro presidente no dia 20 de janeiro.

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