terça-feira, 6 de maio de 2008

Emoção e investimento em bolsa, mistura perigosa

Mauricio Carvalho
Devemos tomar cuidado com nossas emoções, pois elas podem ser prejudiciais à nossa saúde financeira. Acredito que tentar acertar as oscilações da bolsa é um exercício fútil e estar sempre no mercado é a melhor maneira de ganhar dinheiro. É muito melhor manter os investimentos e agüentar as quedas - embora seja dificílimo aceitar ver o valor do nosso patrimônio se desvalorizar - para depois aproveitar as subidas.

Pouca gente consegue saber quando as ações vão subir ou cair. Se olharmos o desempenho pífio dos fundos multimercados nos últimos meses, teremos um bom exemplo de que mesmo equipes bem qualificadas, focadas e motivadas, não conseguem acertar sempre. A estratégia correta é comprar quando se acredita que os preços estão bons e não quando o mercado está subindo. E vender quando os preços estão altos, e não quando os papéis estão caindo. Provavelmente, haverá meses em que a performance de sua carteira se descolará do índice, mas essa é a única maneira de se criar valor de maneira sustentável com investimentos em ações.

Vamos aos fatos. Digamos que um investidor tenha participado da espetacular subida da bolsa nos últimos cinco anos. Nos 62 meses decorridos desde o início de janeiro de 2003 até o fim de fevereiro de 2008, por exemplo, o Ibovespa acumulou uma rentabilidade de 463%. No mesmo período, o Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI) rendeu 123%. Mas a bolsa tem uma particularidade: não sobe sempre. Na realidade, existe muita variação da rentabilidade entre os meses, sendo que vários deles podem até mesmo apresentar quedas. Já o CDI é uma aplicação muito mais tranqüila, as variações mensais são sempre parecidas.

O investidor que acha que consegue se antecipar ao mercado vai tentar acertar quais desses 62 meses foram os meses bons. Resultado: vai entrar depois que a bolsa subir e vai sair depois que as ações caírem. E, nessa estratégia, o investidor provavelmente vai perder dinheiro porque as subidas são sempre muito concentradas em poucos meses. Se ele fizer a aposta errada e ficar de fora em apenas alguns desses meses bons, toda a sua rentabilidade ficará comprometida. Se nesse período de 62 meses, que foi espetacular para investimentos em bolsa, ele tivesse ficado fora nos oito melhores meses, ou apenas 13% da amostra, seu rendimento acumulado teria caído para 117% - abaixo do CDI.

Ou seja, um erro de pouco mais de 10% em sua estratégia de "market timing" faria com que o investidor corresse muito risco, entrando e saindo da bolsa, e não ganhasse nenhum prêmio por isso. Seria muito melhor e mais tranqüilo ficar aplicado no CDI e ir jogar tênis. Mais um detalhe: ele ainda teria todo o custo de corretagem e o trabalho de análise e controle das ações. É claro que ninguém espera que um investidor bem informado erre todos os melhores meses da bolsa, mas meu argumento é que, mesmo se ele errasse apenas alguns meses, o impacto na rentabilidade seria considerável e comprometeria todo o esforço para prever os movimentos do mercado. Conclusão: para se ganhar dinheiro em bolsa é preciso estar sempre na bolsa.

Mauricio R.A. Carvalho é professor no MBA do IBMEC-SP e sócio da Portfolio Administração de Recursos

E-mail: mauricioRAC@isp.edu.br

A taxa de câmbio e a inflação de alimentos

A taxa de câmbio é o principal mecanismo de transmissão da política monetária no Brasil. Quando o Banco Central eleva a taxa de juros não há necessariamente contração dos agregados monetários, reservas bancárias e oferta de crédito, por exemplo, e por estes mecanismos a demanda agregada. Ao contrário, há episódios em que elevação da taxa de juros convive com forte expansão de crédito de outros agregados monetários, mas sempre tem afetado a taxa de câmbio e, por este mecanismo de transmissão, a taxa de inflação. Assim, desde 1999, o sucesso da política monetária em controlar a taxa de inflação vem ocorrendo fundamentalmente via apreciação da taxa de câmbio. Entretanto, a taxa de câmbio é um dos preços fundamentais para a atividade agropecuária, grande exportador, por afetar a sua receita e a decisão de ampliação ou redução na área plantada. Se, de um lado, o Banco Central, ao elevar a taxa de juros, reduz a taxa de inflação, via apreciação da taxa de câmbio, por outro, esta última reduz a área plantada com potencial impacto inflacionário.

De fato, pode-se observar no gráfico que a inflação no Brasil se acelera com a depreciação da taxa de câmbio em 1999 e 2002, e desacelera com a sua apreciação, como se observa no período pós-2003. Neste último período, observe-se dois choques externos de elevação de preços de commodities em 2004 e 2007.

No entanto, observa-se que existe uma forte correlação entre taxa de câmbio e a área plantada de grãos no Brasil, conforme gráfico. No período em que a taxa de câmbio aprecia logo depois do Plano Real, a área plantada cai da safra de 1994/95 a 1997/98. Com a desvalorização cambial de janeiro de 1999 e depreciações posteriores, a atividade agropecuária responde com rigor e expande de forma fantástica, ampliando a área plantada de 35 milhões de hectares, em 1997/98, para 49 milhões de hectares, em 2004/05, um aumento de 40%, isto é, 14 milhões de hectares de área plantada em sete anos. Com a apreciação da taxa de câmbio a partir de 2004, a área plantada caiu para 46 milhões de hectares na última safra 2007/08. Se o mesmo estímulo tivesse sido mantido até a última safra, a área plantada em grãos poderia ter aproximado de 60 milhões de hectares e a produção de grãos seria da ordem de 180 milhões de toneladas, lembrando que a produtividade vem aumentando significativamente no Brasil - basta lembrar que nos últimos dez anos aumentou 38,1%. Com oferta adicional de 40 milhões de toneladas de grãos o quadro internacional seria outro e a inflação de alimentos muito menor.

Com a política de taxa de juros e de câmbio praticada nos últimos anos, o medo e o desânimo tomaram conta dos empresários, que se retraíram para sobreviver, com redução na área plantada no Brasil desde 2004. Para agravar a situação do setor agropecuário, desde 2002/3 ocorre uma sucessão de choques negativos: elevação do preço da terra e dos insumos e problemas de praga e secas. Os preços recebidos pelos agricultores vinham tendo uma evolução favorável com a depreciação da taxa de câmbio. A forte apreciação da taxa de câmbio a partir de 2004 passa a repercutir negativamente nos preços recebidos pelos agricultores, enquanto os preços pagos pelo agricultor disparam. Assim, a receita dos 20 principais produtos agrícolas atingiu seu pico de R$ 134 bilhões em 2003, reduziu para R$ 123 bilhões em 2007, enquanto no mesmo período os preços pagos aumentaram significativamente, gerando uma grave crise no setor. Com isso, a agropecuária acumulou dívidas que vêm crescendo ao longo dos anos e se descapitalizou, de forma que, mesmo com o fenomenal estímulo da brutal elevação dos alimentos, não aumentou a área plantada nesta safra. Em 2007, os preços recebidos disparam novamente. Segundo o índice de preço de alimentos da revista "The Economist", no último ano eles aumentaram 65,4%, e acima dos preços pagos, mas mesmo assim a área plantada não aumentou. Com este aumento de preço e aumento de produtividade, a receita na safra 2007/08 deverá subir para R$ 147 bilhões.

O Brasil é hoje o país que possui, de longe, maior área de terras aráveis ainda não utilizadas, além de ter uma imensa área de pastagens degradas que podem ser recuperadas e convertidas em lavoura, ou para sistema de rotação pecuária-lavoura. No Brasil, as culturas anuais e permanentes ocupam 72 milhões de hectares, temos 71 milhões de hectares de áreas não exploradas ainda disponíveis para a agricultura e 172 milhões de hectares de pastagens - com sua recuperação e integração com lavouras, a disponibilidade de áreas utilizáveis poderia ser aumentada em mais 100 milhões de hectares. Da área territorial total do Brasil, de 851 milhões de hectares, 493 milhões de hectares compõem a área onde não podemos produzir (Floresta Amazônica, área de conservação, centros urbanos etc). Desta forma, hoje a área total onde o Brasil pode produzir é de 287 milhões de hectares. Para concluir, o Brasil possui uma competente e dinâmica classe empresarial rural, que responde rapidamente à estímulos de preços; a maior área de terras cultiváveis não utilizadas; tem uma das maiores indústrias de máquinas, equipamentos e insumos agrícolas do mundo; e domina a tecnologia. O Brasil é solução para o problema da escassez mundial de alimentos. Falta política macroeconômica adequada, que não transfira renda do produtor-exportador para o consumidor-importador; taxa de câmbio não apreciada; não impor restrições de crédito à produção e taxa de juros civilizadas.


Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP, escreve mensalmente às terças-feiras.

Indústria acelera vendas e contratações

Arnaldo Galvão
A indústria teve, nos primeiros três meses de 2008, o maior crescimento dos últimos cinco anos para o período, na comparação feita com o desempenho do trimestre anterior, já descontados os efeitos sazonais. Por esse critério, os aumentos verificados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) foram de 1,8% no faturamento, 2,1% nas horas trabalhadas e 1,1% no emprego em relação ao quarto trimestre de 2007. O uso da capacidade instalada, no entanto, teve um pequeno recuou, de 0,1%.

No confronto com os dados do primeiro trimestre de 2007, a expansão dos indicadores industriais é expressiva: 7,6% no faturamento, 6% nas horas trabalhadas e 4,9% no emprego. Em março, o uso da capacidade instalada foi de 83,1%, o que representa, praticamente, estabilidade sobre o nível de fevereiro (83%), mas revela aumento sobre março de 2007 (82%).

Esse ritmo intenso, contudo, pode estar perdendo força. Dois indicadores de março - faturamento e horas trabalhadas - tiveram leve recuo sobre o que ocorreu em fevereiro, já descontados os fatores sazonais. O economista-chefe da CNI, Flávio Castelo Branco, comenta que, normalmente, março apresenta números melhores que os de fevereiro, principalmente pelo maior número de dias úteis. Mas ele também alerta que o movimento de março pode ser apenas uma acomodação isolada. "Esse arrefecimento ainda não significa uma tendência", diz.


Na perspectiva do economista da CNI, o aperto monetário e a valorização cambial podem reduzir o ritmo de crescimento da indústria neste ano. O que preocupa especialmente os industriais, segundo ele, é o câmbio. A cotação do dólar no patamar de R$ 1,70 já representava perda de competitividade das exportações e até deslocamento da produção nacional de bens de consumo. Nessa avaliação, o aumento da taxa de juros e a promoção do Brasil ao grupo de países onde o investimento é recomendado (investment grade) trabalham contra a desvalorização da moeda.

"A perspectiva para a indústria continua positiva para os próximos meses, mas o ritmo de expansão pode ser menor que o previsto", avalia Castelo Branco. A CNI projetava que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e da indústria seriam de 5% em 2008.

Os indicadores industriais do primeiro trimestre revelam que, entre 19 segmentos analisados, veículos automotores, máquinas/equipamentos e alimentos/bebidas foram os mais dinâmicos. As montadoras de automóveis foram as maiores responsáveis pelo aumento do uso da capacidade instalada em março, seguidas dos setores de borracha/plástico e minerais não metálicos. Castelo Branco garante que não há pressão generalizada sobre a capacidade instalada da indústria. Ele ressalta que, em março, entre os 19 segmentos, nove tiveram recuo na utilização de seus equipamentos. Naquele mês, as três maiores quedas foram em refino de petróleo e álcool, material eletrônico e de comunicação e produtos químicos.

No crescimento de 7,6% no faturamento da indústria no primeiro trimestre, as três maiores contribuições vieram de veículos automotores, máquinas e equipamentos e metalurgia básica. Os três piores desempenhos foram de produtos químicos, madeira e edição/impressão. Na comparação de março com fevereiro (na série com ajuste sazonal) a queda de 0,5% no faturamento interrompeu sequência de crescimento de sete meses seguidos.

O indicador de horas trabalhadas é o que mais se aproxima ao de atividade da indústria e o salto de 6% no primeiro trimestre foi impulsionado, principalmente, por alimentos/bebidas, máquinas/equipamentos e veículos automotores. Nos três primeiros meses, a atividade recuou em madeira, couro/calçados, vestuário/acessórios e refino de petróleo e álcool.

A expansão do emprego industrial no primeiro trimestre (4,9%) foi puxada, principalmente, pelas empresas dos segmentos de alimentos/bebidas, máquinas/equipamentos e veículos automotores - eles responderam por 65% dessa expansão. Segundo a CNI, a massa salarial no primeiro trimestre foi 6,8% maior que a verificada no mesmo período de 2007.

Tesouro poderá fazer nova captação externa

Alex Ribeiro, de Brasília
O Tesouro Nacional avalia a possibilidade de fazer uma nova captação no mercado internacional, cumprindo sua estratégia de melhoria do passivo externo indicada em seu plano anual de financiamento. "O momento de voltar ao mercado internacional ficou mais próximo depois da concessão do grau de investimento pela Standard & Poor's", informa o secretário-adjunto do Tesouro, Paulo Valle.

O governo não precisa de dinheiro novo - na realidade, esta fazendo resgates líquidos de dívida. Mas o Tesouro tem interesse de fazer novas captações para reforçar alguns pontos de sua curva internacional de juros. De um lado, estão sendo recomprados títulos com baixa liquidez e que são negociados acima de seu valor de face. São papéis que pagam prêmio no mercado secundário e que, por isso mesmo, permitem que o Tesouro tenha lucros contábeis na sua recompra antecipada.

De outro lado, faz parte da estratégia do Tesouro reforçar dois pontos da sua curva de juros, com prazos de 10 anos e de 30 anos. Hoje, existe um volume de R$ 2 bilhões em títulos soberanos com vencimento em 2017 e de R$ 2,5 bilhões com vencimento em 2037. A avaliação é que, para aumentar ainda mais a liquidez desses papéis, o ideal é que esses volumes sejam aumentados para R$ 3 bilhões.

Na visão do Tesouro, se os volumes de papéis nesses dois vencimentos aumentarem, sua negociação no mercado secundário se tornará mais intensa, reduzindo o prêmio por liquidez. O resultado será o pagamento de juros menores, caso o Tesouro decida voltar a se financiar no mercado internacional. Empresas também pagarão juros menores nas suas captações, já que a curva de juros do Tesouro serve de referência para o setor privado.

Valle disse que a elevação do país a grau de investimento derrubou ainda mais os juros dos papéis brasileiros. "O mercado, na prática, já vinha tratando os títulos brasileiros como grau de investimento, na medida em que os juros caíram para níveis pagos por países bem classificados pelas agências."

Um exemplo: nos últimos meses, os juros dos títulos brasileiros chegaram muito próximos aos pagos pelos papéis do México, que já há alguns anos conquistou o grau de investimento. Na sexta-feira, depois da concessão do grau de investimento, os títulos brasileiros com prazo de 30 anos estavam pagando 5,85% ao ano, abaixo da remuneração dos mexicanos, que pagavam 6,01% no mesmo dia.

Para Valle, o fato de o Brasil pagar menos do que o México reflete os fundamentos favoráveis da economia brasileira, como uma pauta de exportação diversificada, alto volume de reservas internacionais e reduzida dependência da economia americana. A mais recente captação da República aconteceu em junho de 2007, com a reabertura de um papel com vencimento em 2028. Desde então, o Tesouro tem se resguardado, em virtude do ambiente de maior incerteza no mercado internacional. "A estratégia se mostrou acertada", disse. Os prêmios aumentaram, o que tornou o momento mais favorável para fazer resgates de pontos desfavoráveis na curva.

Ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, em entrevista para a rádio CBN, que o governo poderá vir a aumentar a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), hoje em 1,5% sobre o ingresso de capitais estrangeiros dirigidos a renda fixa, caso a concessão de grau de investimento leve a um aumento nesse fluxo. "Já criamos o IOF , de 1,5%, para tentar inibi-lo. Se for preciso, cria-se mais, o Conselho Monetário (Nacional) saberá o momento adequado de discutir isso", disse o presidente. "Acho que temos que ter mecanismos para não misturar o dólar que entra para o setor produtivo, para construir uma fábrica, para gerar um emprego, com o dólar que vem para a especulação."

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Karaka!!!!!!!

Hemm???????

Standard & Poor's eleva o rating do Brasil para grau de investimento


Por: Roberto Altenhofen Pires Pereira
30/04/08 - 16h00
InfoMoney

SÃO PAULO - A agência de classificação de risco Standard & Poor's elevou o rating do Brasil para grau de investimento nesta quarta-feira (30). Com a alteração, o País passa a ter nota "BBB-", de "BB+".

A reação da Bolsa de Valores de São Paulo foi imediata. Instantes após o anúncio, o Índice Bovespa disparou de alta de 1,50% para valorização de quase 4%, acima dos 66 mil pontos.

Especulação força alta do dólar e do juro

Muita especulação marcou a véspera do encerramento de abril nos mercados de câmbio e juros. Os "comprados" em dólar nos pregões de derivativos cambiais da BM&F anabolizaram a influência de alta exercida pela deterioração da conta corrente do balanço de pagamentos, não porque estão sinceramente prevendo uma depreciação cambial danosa à inflação, mas apenas para ganhar dinheiro. Os fundos de investimento nacionais ampliaram na segunda-feira de US$ 3,71 bilhões para US$ 4 bilhões suas posições "compradas" em cupom cambial e dólar futuro. Estes contratos serão liquidados pela taxa oficial de câmbio (a "ptax") de hoje. Como a maior parte da "ptax" do dia é formada no período matinal, o que concentra maior volume de operações, prevê-se mais uma manhã de alta e um período vespertino de queda se o Federal Reserve (Fed) não surpreender e reduzir o juro básico americano em 0,25 ponto, para 2%.

A puxada de preços feita ontem pelos fundos "comprados" foi vigorosa. De manhã, o dólar chegou a ser cotado a R$ 1,7140, em disparada de 1,48%. Fechou mais comportado, mesmo assim com valorização de 0,94%, a R$ 1,7050. A ampliação do déficit em conta corrente não justifica a alta de 2,28% registrada pela moeda em apenas dois dias. Depois do déficit de US$ 4,43 bilhões contabilizado em março, as instituições estão revendo para cima o rombo projetado para o ano, mas isso não significa reversão da tendência principal de apreciação cambial. As maiores remessas líquidas de lucros e dividendos e a ampliação dos gastos com viagens internacionais levaram a LCA Consultores, por exemplo, a rever o déficit em conta corrente dos US$ 16 bilhões estimados anteriormente para US$ 21,5 bilhões. "Esta ampliação do déficit em conta corrente, contudo, não deverá eliminar a tendência de apreciação do real, que deve persistir neste e no próximo ano. Isto porque a perspectiva é de que a entrada de dólares relativos a investimento se mantenha forte, ou até mesmo se intensifique, caso o país receba o investment grade", diz a LCA.

Por causa disso, é razoável esperar que continuem sobrando dólares no mercado doméstico, o que sustenta a expectativa de que o real mantenha sua tendência de apreciação. Poderá haver uma maior volatilidade por conta da redução do excesso de moeda, mas não se espera uma guinada de rota. Mesmo na hipótese de o Fed, após cortar a taxa básica para 2%, sinalizar o encerramento do ciclo de afrouxamento deslanchado em setembro do ano passado. Esta expectativa já fez o dólar se valorizar ontem frente as principais moedas globais, com consequente queda de preço das commodities. A mais especulativa delas, o petróleo, tombou feio. O barril fechou cotado a US$ 115,63 em Nova York, em retrocesso de 2,63%. A expectativa dos analistas é de que o Fed tenderá a conferir prioridade ao combate à inflação, deixando em segundo plano a recuperação da atividade econômica. Indicadores fracos, como os surgidos ontem, não sensibilizam mais o Fed. De acordo com dados do instituto Conference Board, o índice que mede a confiança do consumidor americano recuou de 65,9 em março para 62,3 em abril. E o ritmo de queda dos preços das casas acelerou-se. O indicador que mede esses preços em 20 áreas metropolitanas acusou declínio de 12,7% em fevereiro comparativamente a fevereiro de 2007.

No mercado futuro de juros da BM&F, a especulação altista destinada a valorizar as propostas ao leilão primário de títulos públicos realizado ontem pelo Tesouro Nacional se serviu do IGP-M acima das expectativas para puxar fortemente as projeções de CDI durante a manhã. À tarde, encerrado o leilão, a febre baixou. O IGP-M fechado de abril acusou alta de 0,69%. Embora em desaceleração frente a março, quando subiu 0,74%, o índice freou menos do que o previsto pelos analistas, que apostavam em 0,47%. As instituições invocaram a necessidade de o BC prolongar o ciclo de aperto monetário iniciado este mês como argumento para jogar o contrato c om vencimento em janeiro de 2010 para quase 14% no pregão matinal, ante 13,83% na véspera. Puro delírio especulativo. Estavam na verdade forçando o Tesouro a aumentar a remuneração dos papéis prefixados. Depois do leilão, o janeiro 10 caiu a 13,85%. O Tesouro aceitou o pedido dos bancos e vendeu 800 mil LTNs, no valor de R$ 671,40 milhões. Todas as 1,5 milhões de LFTs oferecidas também foram aceitas, girando R$ 5,152 bilhões. Contratos descasados com os prazos de vencimento das LTNs até caíram. Foi o caso do CDI com vencimento em janeiro de 2012, que cedeu de 13,93% para 13,91%.

Luiz Sérgio Guimarães é repórter de finanças
luiz.guimaraes@valor.com.br
Por Angelo Pavini, de São Paulo
A alegria dos investidores em ações durou pouco. Depois de chegar perto do recorde histórico na segunda-feira, o Índice Bovespa voltou a cair, perdendo quase metade do ganho do mês em um só dia. Em abril, o retorno está agora em 4,69% e, no ano, há uma perda de 0,10%. Olhando o gráfico de julho do ano passado para cá, porém, o que se vê é que o Ibovespa já repetiu essa rotina de agonia e glória outras vezes. O que chamou a atenção desta vez foi que a recuperação foi sustentada por uma forte entrada de investidores estrangeiros. Neste mês, até dia 24, o saldo na Bovespa estava positivo em R$ 6,172 bilhões, recorde mensal absoluto, zerando as fortes saídas do ano. A pergunta que fica ao observar o ganho do mês e a forte entrada de estrangeiros é: será que o pior já passou?

A maioria dos analistas reconhece que um dos piores receios do mercado, a possibilidade de quebra de um banco de grande porte americano ou europeu, diminuiu bastante com a atuação dos bancos centrais americano e europeus injetando caminhões de dinheiro no mercado. Mas esses mesmos analistas observam que boa parte da recuperação deste ano se refere a papéis ligados a commodities. Olhando os preços médios das matérias-primas pelo Índice CRB, o que se nota é que os preços estão 30% acima dos valores de junho do ano passado.

Isso explica o forte descolamento entre o Ibovespa, que sobe 17,34% no período, e o índice americano Standard & Poor's (S&P), que cai 7,48% de junho para cá. A lista das maiores altas e baixas deste ano também mostra o efeito das commodities, com fortes ganhos das siderúrgicas. Já as baixas misturam papéis menos líquidos com casos específicos, como Cesp, cujo leilão de privatização fracassou, e Gol e TAM por conta do preço do petróleo.

A situação da bolsa melhorou em relação ao início do ano, afirma Roseli Machado, responsável pela Fator Administração de Recursos (FAR). "O problema para o mercado é quando não se sabe o tamanho da crise", diz ela. "Hoje já se sabe que não há nenhum grande banco quebrando e o mercado voltou rapidamente, o S&P e o Ibovespa acompanharam", afirma.

O que deve influenciar o mercado agora, diz, é o reflexo dessa crise bancária sobre a economia global, sobre o consumo dos americanos, e quanto tempo a economia dos EUA vai demorar para se recuperar. "Como o mercado não tem tanta clareza sobre essas variáveis, deve ter dificuldade em superar a barreira dos 66 mil pontos na Bovespa", diz Roseli. Ao mesmo tempo, quando saírem números ruins de atividade nos EUA, o mercado deve piorar e o índice volta para os 60 mil pontos. "Mas é um processo de preparação para uma arrancada do mercado no futuro", diz ela, que trabalha com um Ibovespa em 80 mil pontos no fim deste ano e vê maior potencial de ganhos no setor de siderurgia.

Além da atividade econômica mundial, outro fator de indefinição é a inflação, afirma Roseli. Se a alta for estrutural e, portanto, de longo prazo, deve levar a uma elevação dos juros ao redor do mundo, inclusive nos mercados emergentes, por algum tempo. E juro alto pode afetar os preços das commodities e, portanto, os papéis brasileiros.

A bolsa andou bem este mês e recuperou as perdas do mês passado, mas a pressão da incerteza no mercado externo continua, diz Pedro Galdi, analista de investimentos da corretora do Banco Real. Ele lembra que há dúvidas sobre o que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) poderá fazer para ajudar a recuperação da economia, uma vez que não pode reduzir muito os juros, que já estão abaixo da inflação. "E aí as opiniões começam a se dividir e o mercado fica volátil, com o Ibovespa variando entre os 60 mil pontos e os 66 mil", diz. "Ficamos nessa história de bem-me-quer, mal-me-quer, este mês foi de bem-me-quer." Mas ele destaca que a tendência do índice ainda é de alta e há a expectativa de que o país receba o grau de investimento não-especulativo ("investment grade"), o que vai atrair novos investidores externos para cá. Galdi estima um valor justo para o Índice Bovespa em 81 mil pontos e espera uma melhora no segundo semestre deste ano.

Nos próximos seis, oito meses, o cenário para a bolsa brasileira é ruim, afirma Caio Megale, da Mauá Investimentos. Segundo ele, ajuda nessa visão negativa o fato de o BC brasileiro ainda elevar mais a taxa de juros. "O BC vai subir os juros em até 2,5 pontos percentuais e isso não está no preço das ações hoje", alerta. E se o juro subir e segurar a economia como quer o BC, empresas de varejo devem cair mais.

Outro fator que influenciará a Bovespa será a bolsa americana. Megale está mais pessimista com a economia dos EUA, uma vez que os custos com petróleo estão aumentando, os salários diminuindo e as margens das empresas sendo comprimidas. Isso tudo deve retardar a recuperação da economia nos próximos seis, sete meses. "E, aí, fica difícil a bolsa brasileira subir com a americana caindo". No longo prazo, porém, Megale é comprador de bolsa. "Para um ano, dois, há muito crescimento de lucro que não está embutido nos preços de empresas que estão muito baratas", diz.

Os fundamentos da economia brasileira continuam bons e dão sustentação para a bolsa, acredita Tomás Awad, estrategista da Itaú Corretora. "Podemos ter alguns surpresinhas com inflação mais alta e contas externas, mas no geral o cenário é bom", diz. Ele reconhece que o cenário externo ainda é incerto, mas acha que a economia americana deve se recuperar e, com isso, o Ibovespa teria condições de atingir níveis entre 75 mil e 77 mil pontos. "Nossos preços ainda estão atrativos olhando os indicadores de Preço/Lucro (referencial que estima em anos o tempo de retorno do investimento na ação) em relação a outros países", diz. Segundo ele, o P/L do mercado brasileiro está em 10 vezes, para 13 dos EUA e 15 vezes da China e Índia.

Já Alexandre Póvoa, da Modal Asset Management, é mais pessimista. Para ele, a economia americana não vai se recuperar tão rapidamente, já a partir do último trimestre deste ano, como acreditam os analistas. Nesse cenário, os papéis de primeira linha seriam ameaçados por uma queda nas commodities e as de segunda, pela falta de liquidez. "O Ibovespa em 66 mil pontos é extremamente perigoso para o investidor", diz.

Investidores ainda têm visão curta sobre o longo prazo

Marcelo Pereira
Durante os últimos três anos, vivenciamos no mercado brasileiro um "boom" incrível nos preços dos ativos e nas rentabilidades de vários produtos financeiros, entre eles, os fundos de investimento. Segundo dados da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), o setor de fundos brasileiro já acumula patrimônio de R$ 1,2 trilhão. Só para se ter idéia, no início de 2000, o patrimônio era de R$ 297 bilhões, ou seja, um crescimento de quatro vezes.

Inúmeros foram as aberturas de capital (IPO, na sigla em inglês) que encantaram a todos, com rentabilidades infladas a cada novo lançamento pelo impulso dos amigos que ganharam a rentabilidade de um ano inteiro em uma hora. Vale lembrar que houve casos, como o da Bovespa Holding, em que o papel subiu 50% no primeiro dia de negociação na bolsa.

Muitos foram os recordes de captação de fundos multimercados e de renda variável inflados a cada mês pela rentabilidade do semestre anterior ou mesmo do mês anterior. Algumas vezes, até aplicações com objetivos conservadores, vivenciando a euforia do mercado, apresentaram resultados polpudos, mas fora do escopo e do histórico do produto. Não que o gestor estivesse fugindo do mandato estabelecido pelo fundo, mas certamente assumindo um risco muitas vezes excessivo em busca de um retorno fácil e rápido.

Os produtos financeiros procurados pelos investidores passaram a ser escolhidos pelo seguinte critério: "o fundo que rendeu mais no último mês ou qual o IPO que será mais rentável em menos tempo". Este processo, que chamo de "ilusão rentabilística", normalmente acontece em períodos de crescimento ininterrupto e de baixa volatilidade. Essa ilusão acaba deturpando a percepção de risco dos investidores e criando também um referencial de mercado ilusório. Isso inevitavelmente aumentará a exposição a risco do investidor trazendo surpresas desagradáveis no médio prazo.

Mas chegamos a agosto de 2007, mês que carrega a responsabilidade de três anos de histórico baseado nesse cenário. Eis que, então, a volatilidade apareceu! E, desta vez, para todos os lados. Nos primeiros meses de turbulência, muitos investidores em vez de diminuírem suas exposições ao risco - ou simplesmente não aumentarem o risco e diminuírem sua liquidez -, aumentaram suas posições, acreditando que este seria mais um pequeno "soluço" do mercado. Afinal, naquele momento, o mercado caiu tanto que muitos ativos tinham perdido substancialmente seu valor. A maioria acreditava que o mercado iria voltar.

Mas a verdade é que não voltou nem em agosto, nem em 2007 e provavelmente nem em 2008. As provisões para as perdas foram aumentando a cada toque do sino. A volatilidade aumentou em todos os mercados. Até mesmos as commodities, que haviam passados incólumes pelo início da crise, passaram a acompanhar o vai-e-vem do mercado.

Chegamos aos dias atuais. A "porta" (agora de saída das aplicações) diminuiu substancialmente. Os investidores passaram a perguntar o porquê de resultados tão ruins, o motivo para a valorização deste ou daquele ativo. Relembro: em muitos casos, os ativos hoje valem o que deveriam valer. Antes é que estavam supervalorizados. Os saques nos fundos multimercados se multiplicaram, já que muitos não repetiram os resultados padrão de meses atrás. Vale lembrar que esses fundos são aqueles mesmos que eram, até então, considerados excepcionais. A maioria dos gestores continua fazendo o que fez nos últimos três anos.

Na verdade o investidor ainda não tem visão de longo prazo. E julgo que a culpa vem da junção de três costumes brasileiros. O primeiro é o CDI exorbitante, já que os investidores se acostumaram a ganhar 30% ao ano sem volatilidade as custas do financiamento da dívida do governo. O segundo vem da famosa cota diária que inevitavelmente trouxe e traz mais ansiedade e sensação de volatilidade para os investidores. O terceiro é o que chama de "ilusão rentabilística", depois de o investidor ter vivido momentos contínuos de baixa volatilidade e ganhos significativos. A paciência do investidor ainda é curta e pouco analítica sobre o que realmente se espera de um investimento ou quais os níveis de risco que são aceitáveis. Estes investidores, que hoje vivem quase uma crise existencial, vão ter de necessariamente aceitar momentos de turbulência e de oscilações econômicas se quiserem alcançar maiores retornos em suas carteiras.


Esta visão em relação ao tempo de investimento já foi menor em outras épocas. E cada vez mais é uma questão de aculturamento de questões como segurança nas escolhas dos produtos, entendimento dos riscos e do prazo de maturação do investimento. E isto, não tem jeito, é uma questão de longo prazo.

Marcelo Pereira é sócio da TAG Investimentos

E-mail: marcelo.pereira@taginvest.com.br

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