segunda-feira, 16 de junho de 2008

Economistas prevêem juros de 14,25% e IGP-M de 10% em 2008, diz pesquisa do BC

Economistas prevêem juros de 14,25% e IGP-M de 10% em 2008, diz pesquisa do BC

EDUARDO CUCOLO
da Folha Online, em Brasília

Economistas e analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Banco Central aumentaram novamente suas previsões para juros e inflação em 2008.

A pesquisa semanal do Banco Central conhecida como relatório Focus mostra que os analistas esperam que a taxa básica de juros termine 2008 em 14,25%, ante previsão de 14% ao ano feita na semana passada. Para o final de 2009, a previsão de que a Selic estaria em 12,50% subiu para 12,75%.

No início do mês, o Copom (Comitê de Política Monetária do BC) aumentou a taxa básica de juros de 11,75% para 12,25% ao ano. Na ata da reunião, os diretores do BC dizem que continuarão aumentando os juros "enquanto for necessário".

Agora, o mercado espera um aumento para 12,75% na reunião do Copom do final de julho; para 13,25% na reunião no início de setembro; 13,75% em outubro; e para 14,25% em dezembro (o Copom se reúne a cada 45 dias aproximadamente).

Inflação

Apesar dos juros mais altos, a expectativa para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que serve como meta de inflação, subiu pela 12ª semana seguida. O IPCA deve fechar o ano a 5,80%, acima dos 5,55% esperados até a semana passada. Se confirmado, o indicador ficaria acima do centro da meta de inflação para esse ano, que é de 4,5%. Para 2009, a previsão do IPCA ficou em 4,60%.

Os demais indicadores de inflação pesquisados pela instituição também tiveram as projeções para 2008 elevadas pelo mercado. O maior destaque foram os IGPs, que servem de base para o reajuste de aluguéis e tarifas.

A expectativa do mercado para o IGP-DI (Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna) subiu de 9,01% para 9,96%; o IGP-M (Índice Geral de Preços - Mercado) teve a previsão aumentada de 8,73% para 10%; e o IPC (Índice de Preços ao Consumidor) da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômica) ficaria em 5,52%, ante 5,50% da semana anterior. A estimativa de inflação para os preços administrados ficou em 3,70%.

PIB

A previsão para o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) subiu de 4,77% para 4,80% em 2008. Para 2009, foi mantida a previsão de 4%. Ambas estão abaixo da projeção oficial do governo, de 5% para os dois anos.

A estimativa para o dólar ficou em R$ 1,70 para o final deste ano. Para dezembro de 2009, a previsão caiu de R$ 1,78 para R$ 1,77.

A previsão do saldo da balança comercial em 2008 subiu de US$ 23 bilhões para US$ 23,35 bilhões. Para 2009, subiu de US$ 15 bilhões para US$ 15,61 bilhões.

Contas externas

Subiram as expectativas de investimentos estrangeiros diretos, de US$ 33 bilhões para US$ 34,15 bilhões (2008). Para 2009, foi mantida a previsão de US$ 30 bilhões.

Houve ligeira queda na previsão para a relação dívida/PIB, de 41,15% para 41,10% neste ano. Por fim, piora no saldo em conta corrente, com um resultado negativo de US$ 22,9 bilhões para US$ 23 bilhões.

Inflação no mês

Foram divulgadas também as previsões para junho e julho dos indicadores de preços. A expectativa do mercado é que o IPCA aponte inflação de 0,50% e 0,40%, respectivamente. Para o IPC-Fipe, as taxas previstas são 0,61% e 0,36%.

Para o IGP-DI de junho, a estimativa é de uma inflação de 1,20%, ante previsão de 0,90% feita na semana passada. Em julho, o indicador deve chegar a 0,70%.

Para o IGP-M, as estimativas são de uma taxa de 1,68% em junho, ante previsão de 0,95% feita na semana passada. Em julho, o indicador deve ficar em 0,79%.

Queda dos juros

As estimativas do relatório Focus mostram também que os juros só devem voltar a cair em março de 2009. Após elevar a taxa básica para 14,25% no final de 2008, o BC deve trazer a Selic de volta para 14% em março do próximo ano, para terminar 2009 em 12,75% ao ano.

Tiger Woods - U.S. Open Rally (3rd Round)

"Lula corre risco muito grande de déficit externo"

ENTREVISTA/LUIZ GONZAGA BELLUZZO

Economista quer frear crédito e diz que erro do BC eleva custo de combate à inflação

O PAULISTANO Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, 65, um casal de filhos, "duas ex-mulheres ótimas", é um dos principais conselheiros econômicos informais do presidente Lula. Classifica-se ideologicamente como "keynesiano socialista reformista". Nesta entrevista, esse bem-humorado palmeirense revela as sugestões que dá ao corintiano Lula. Fala da crise internacional e defende ação do governo em negócios privados.

KENNEDY ALENCAR
EM SÃO PAULO

FOLHA - O maior problema da nossa economia é a inflação ou o câmbio valorizado?
LUIZ GONZAGA DE MELLO BELLUZZO - Os dois. A valorização do câmbio reflete um equívoco intertemporal, palavra feia, da política monetária. Quando ocorreu a grande melhoria do cenário externo, o Brasil deveria ter baixado os juros mais do que baixou para impedir que o câmbio se valorizasse tanto. Hoje, é um problema pensar numa desvalorização cambial porque estamos no meio de um choque de commodities.

FOLHA - Agora estamos elevando uma taxa de juros real, a mais alta do planeta, por causa da inflação.
BELLUZZO - Exatamente. Estamos nessa situação porque o passado importa, ao contrário do que dizem os economistas. Há países em situação pior por conta da maior vulnerabilidade ao choque de commodities.
Não podemos separar os fatores internos e externos. É claro que há um choque externo que pega a economia num momento de grande aceleração da demanda, e isso tem efeitos para contaminar o resto dos preços. É só olhar o núcleo da inflação. A inflação cheia está se acelerando, mas o núcleo também está.

FOLHA - O que é o núcleo?
BELLUZZO - Excluem-se os preços mais voláteis, como energia e alimentos. Com a demanda acelerada, a inflação começa a se espalhar pelo sistema de preços como um todo.

FOLHA - Há descoordenação entre as políticas fiscal e monetária? O BC precisa ser mais rigoroso ao elevar os juros para compensar um esforço fiscal aquém do necessário agora?
BELLUZZO - Houve custos fiscais com a política monetária. É preciso reequilibrar o jogo. É preciso o mínimo de compatibilidade entre as políticas fiscal e monetária. Por conta do passado, tem um pé que está faltando. Armínio Fraga [ex-presidente do BC] sugeriu regra de crescimento do gasto público. Se o PIB cresce a 5% ao ano, o gasto público cresceria até 2%, 2,5%. Estou de acordo.

FOLHA - O sr. participa de reuniões com Lula na qualidade de conselheiro. Por que ele não adota essa regra?
BELLUZZO - Foi sugestão sensata do Armínio, mas não foi discutida por nós. Falamos no aumento do superávit primário. A regra do Armínio é menos rigorosa do que recomendamos eu, o Delfim Netto [economista e ex-deputado federal], o Luciano Coutinho [presidente do BNDES] e o Guido [Mantega, ministro da Fazenda].

FOLHA - Existe a equipe econômica do B? Como são as reuniões de conselheiros econômicos com Lula?
BELLUZZO - Não existe equipe econômica do B. O Guido Mantega e o Henrique Meirelles [presidente do BC] estão lá presentes. Eles muitas vezes contestam veementemente o que a gente diz. O debate é assim mesmo. É preciso aprender a ter as suas idéias contestadas. No Brasil, o sujeito fica irritado quando alguém discorda dele. As reuniões são informais.
Quando uma pessoa dá uma cavalada na outra, Lula pede para parar. Ele ouve muito. A discussão é aberta. Cada um fala o que acha. A Dilma [Rousseff, ministra da Casa Civil] vai quando pode. O Ciro [Gomes, deputado federal pelo PSB do Ceará] e o Aloizio Mercadante [senador do PT paulista] também.

FOLHA - A descoordenação das políticas fiscal e monetária legará bomba-relógio ao sucessor de Lula?
BELLUZZO - Não, pelo seguinte: o Lula tem uma peculiaridade. Ao contrário de outras personalidades, ele não tem medo de olhar a dificuldade de frente. Reconhece que é uma situação difícil. Ele disse: "Vamos nos antecipar para impedir que a situação chegue a um ponto irreversível". O Lula sabe que a inflação pega em cheio as classes menos abastadas porque viveu essa experiência na pele.

FOLHA - O governo elevou a meta de superávit primário de 3,8% do PIB para 4,3%. Nos bastidores, diz-se no governo que esse superávit pode chegar a 4,5% na gestão do caixa.
BELLUZZO - Pode, mas não quero me meter na gestão do Guido [Mantega]. Ele já está suficientemente pressionado. Acho que pode chegar a 4,5%, sim. Dependerá da gestão. O que sugeri é que tem de ser mais de 4,3%.

FOLHA - Essa elevação do superávit amenizará a alta dos juros?
BELLUZZO - O choque inflacionário e sua disseminação não são de fácil administração. A inflação ficará acima do centro da meta, que é de 4,5% ao ano. [A elevação do superávit] será suficiente para impedir que [a inflação] saia do controle.

FOLHA - Qual será a inflação deste ano?
BELLUZZO - De 6%, 6% e pouco, mas é difícil prever com exatidão. O importante é manter a inflação dentro da margem de dois pontos percentuais [para cima ou para baixo, faixa para absorver imprevistos].

FOLHA - Que outras medidas, além de subir os juros, o BC pode tomar para combater a inflação?
BELLUZZO - O BC pode cuidar da velocidade da expansão do crédito. Não é apenas o gasto público que está crescendo rápido. O crédito no Brasil ainda é pequeno na comparação com outros países, mas a velocidade do crescimento é muito grande.

FOLHA - A idéia de um fundo soberano foi muito criticada por especialistas. Para alguns, dourou-se a pílula para elevar o superávit primário?
BELLUZZO - Se fosse isso, já estaria bom [risos]. Daqui a dois anos, o Brasil terá uma condição privilegiada por conta da sua dotação de recursos naturais, agora da descoberta do petróleo. O preço do petróleo provavelmente não se manterá nesse nível. Vai ficar num nível satisfatório para tornar rentável a exploração das reservas. O Brasil não poderá ser tolerante com a inflação nos próximos dois anos. Tem de olhar para a frente e fazer um sacrifício para a hora em que a economia mundial iniciar a recuperação.

FOLHA - Esse modelo atual de desenvolvimento não levará o país a ser menos industrializado e mais dependente do setor de commodities?
BELLUZZO - É a questão colocada por todo mundo com o mínimo de juízo. Não podemos virar a Arábia Saudita dos trópicos. Seria um desastre. Não há necessariamente uma oposição entre uma boa dotação de recursos naturais, exportador de commodities e industrializado.
O exemplo maior são os EUA do século 19 para cá. Os EUA conseguiram porque nunca houve país mais protecionista, graças ao pensador da manufatura americana, Alexander... [falha a memória e Belluzzo diz em tom de ironia que está ficando com mal de Alzheimer] ... Alexander Hamilton, o primeiro secretário do Tesouro dos EUA, foi morto num duelo porque era mulherengo [risos].

FOLHA - O cara era bom...
BELLUZZO - Bom... pensador [risos].

FOLHA - O resultado do PIB no primeiro trimestre, impulsionado pelo gasto público, não é literalmente uma bomba-relógio inflacionária?
BELLUZZO - Estão crescendo o gasto público e o consumo privado por causa do crédito. O crédito cresce numa velocidade muito maior do que o gasto público. É preciso uma gestão de demanda. Deixar as duas coisas crescendo tem impacto explosivo. Aí é bomba-relógio.

FOLHA - Que medida deveria ser adotada para limitar o crédito?
BELLUZZO - Cuidado com as regras prudenciais do sistema financeiro. O BC tem de propor um conjunto de regras para que o sistema bancário seja mais restrito ao conceder crédito.

FOLHA - O sr. sugeriu isso a Lula?
BELLUZZO - Sugeri, sim.

FOLHA - Concorda com a teoria de que o Brasil sofre uma "inflação importada", contra a qual a elevação dos juros não adiantaria nada?
BELLUZZO - Não dá para fazer uma separação entre inflação importada e inflação interna. São as duas coisas.

FOLHA - O BC, então, acertou ao subir juros para combater a inflação?
BELLUZZO - O BC tinha de se adiantar ao perceber que a inflação estava mudando de patamar. Mas eu disse ao Meirelles: o problema é que, se a taxa de juros estivesse a 8,5% ao ano, e ele subisse meio ponto e depois mais meio ponto, não seria criado diferencial tão grande que afetaria a taxa de câmbio. A taxa de juros estava errada, estava errada. Quando as condições externas ficaram muito favoráveis, a taxa de juros tinha de ter caído mais rapidamente.

FOLHA - O Meirelles respondeu?
BELLUZZO - Ele é democrático. Estávamos almoçando. Não contestou. Fez um meneio com a cabeça.

FOLHA - Meneio de concordância?
BELLUZZO - Não sei (risos).

FOLHA - Há risco de crise no balanço de pagamentos na gestão Lula?
BELLUZZO - Risco muito grande. Os mesmos fatores que contribuem para valorizar o câmbio contribuem para deteriorar o balanço de pagamentos.

FOLHA - Se houver crise no balanço de pagamentos, quais os efeitos?
BELLUZZO - Uma crise em geral é antecipada pelos mercados. Se acham que há risco, eles vão se mandar. No que se mandam, haveria um salto [desvalorização] no câmbio. Seria o pior dos mundos. Nos próximos meses, com a mudança de patamar inflacionário, um choque cambial seria a pior coisa. Poderia haver inflação descontrolada.

FOLHA - A crise dos EUA resultará em perda de poder daquele país?
BELLUZZO - A solução dos problemas atuais não será feita sem a presença importante dos EUA. Os EUA vêm empurrando para o mundo uma crise desde os anos 70. O mundo tinha de se ajustar a eles. Agora, é mais complicado. Os EUA vão ter de negociar. Não conseguirão impor o ajuste ao mundo.

FOLHA - Como China, Índia e Europa reagirão à crise dos EUA e qual espaço ocuparão no futuro?
BELLUZZO - São e serão protagonistas mais importantes do que já foram. Boa parte do sistema manufatureiro dos EUA, com suas empresas, está no exterior.
Os EUA têm o núcleo inovador da indústria. Continua ali. Mas, ao mesmo tempo, haverá maior partilhamento entre os países. A economia mundial tem outra estrutura. Houve mesmo uma globalização produtiva.

FOLHA - O BNDES deve atuar em negócios como a compra da Brasil Telecom pela Oi?
BELLUZZO - Deve. Uma das funções de um banco de desenvolvimento é estruturar empresas nacionais com capacidade de competição no exterior.

FOLHA - O caso Varig não é exemplo de que o governo Lula interfere em demasia nos negócios privados?
BELLUZZO - São os negócios privados que interferem nos Estados nacionais. É uma velha hipocrisia liberal achar que o Estado se mete na economia. É a economia que se mete dentro do Estado. Se houve favorecimento [no caso Varig], é outra questão, mas o Estado acaba sendo chamado a interferir.
Pergunte a um grande empresário o que ele faz quando tem um problema. Bate à porta do governo. O governo deve ter regras do que pode ou não pode atender.

FOLHA - O sr. assinou um manifesto de apoio a Serra em 2006, quando ele aventou concorrer a presidente. Quando o PSDB optou por Alckmin, o sr. apoiou Lula. Por quê?
BELLUZZO - Porque acho que são mais parecidos do que diferentes [Serra e Lula]. O Serra tromba com os problemas, como o Lula faz. É uma virtude.
Assinei o manifesto porque, naquele momento, do ponto de vista da política econômica, o Serra seria mais conveniente para o Brasil. E, depois, o Lula se mostrou mais conveniente.

FOLHA - O sr. faz ponte entre Serra e Lula, que parecem mais próximos do que no 1º mandato do petista?
BELLUZZO - Não tenho essa pretensão, mas garanto que nunca falei mal de um para o outro. Ao contrário. Acho que serão adversários políticos, mas não acho que serão inimigos.

Inflação: algumas lições da história

Atualmente, tanto quanto nos anos 70, vivemos um ciclo de inflação mundial. Há diferenças importantes, mas há também lições a serem extraídas para que os mesmos erros não se repitam. No início dos anos 70 ainda estávamos no regime de Bretton-Woods, com os Estados Unidos no seu "centro", emitindo a moeda que desempenhava o mesmo papel do ouro no regime do padrão-ouro, com os países da "periferia" fixando suas taxas cambiais com relação ao dólar. Quando os EUA aumentavam a oferta de moeda, obrigavam os demais bancos centrais a comprar dólares para sustentar as taxas cambiais, elevando o estoque mundial de moeda e determinando a inflação mundial. Nos anos 60, os EUA começaram a financiar com déficits públicos a guerra do Vietnã. O Federal Reserve (Fed, banco central americano) poderia ter resistido, elevando a taxa de juros e limitado a expansão monetária, mas optou pela acomodação monetária, levando ao crescimento da inflação mundial.

Quando os preços internacionais de commodities iniciaram o ciclo de alta, em 2002, muitos julgaram que ele derivava exclusivamente da expansão da demanda gerada pela China. Embora a China possa ter contribuído para parte da elevação, se estivéssemos assistindo apenas a uma mudança de preços relativos, aquele ciclo se encerraria quando os novos "preços de equilíbrio" fossem atingidos. Contudo, a contínua aceleração dos preços reflete um quadro diferente. Não estamos diante de uma simples mudança de preços relativos, mas sim de um aumento generalizado de preços nominais, que se iniciou com as commodities e está se espalhando para todos os demais preços. Por que a inflação mundial está retornando?

Atualmente não estamos mais no regime de Bretton-Woods, mas ainda assim há um grande número de países que fixam suas taxas cambiais com relação ao dólar, embora existam exceções, como a do Banco Central Europeu. Por outro lado, os EUA mantiveram taxas de juros extremamente baixas por um longo período, e mais recentemente aceleraram a expansão monetária, não para financiar déficits públicos como nos anos 60, mas para evitar que, ao atingir o sistema bancário, o estouro da bolha imobiliária produzisse uma crise bancária sistêmica. A China, que era freqüentemente apontada como uma "exportadora de deflação", devido ao seu câmbio subvalorizado e salários baixos, vem contribuindo para a inflação mundial ao acumular reservas expandindo sua oferta monetária. Poder-se-ia argumentar que todas estas intervenções no mercado de câmbio são "esterilizadas", mas, diante da queda das taxas reais de juros na grande maioria destes países da "periferia", o processo de esterilização nos parece imperfeito. O paradoxo é que, ao evitar o erro cometido pelo Federal Reserve de 1929, quando contraiu a oferta monetária provocando uma crise bancária, o Fed de 2007/2008 caiu no mesmo problema vivido nos anos 70: o agravamento da inflação mundial.

Nos anos 70, as autoridades brasileiras reagiram negando que a inflação brasileira derivasse da expansão fiscal e monetária, preferindo o diagnóstico de que assistíamos apenas uma inflação importada. Recomendaram (e adotaram) a mesma acomodação monetária que tem sido insistentemente sugerida atualmente pelo ministro da Fazenda. Há três lições que podemos extrair daquela experiência. A primeira é que a decisão de acomodar a política monetária fez com que a inflação saísse do controle. A segunda é que, ao tentar evitar no curto prazo o custo de combater a inflação, tivemos que pagar um custo muito mais alto a médio e longo prazos. A terceira é que, tanto quanto nos anos 1970, o presente surto de inflação mundial não é um "novo paradigma" da economia mundial, e terá que ser combatido. Da mesma forma como ocorreu nos anos 70, o final deste ciclo inflacionário exige uma fase de aperto monetário na maioria dos países, que ocorrerá mais cedo ou mais tarde. Nas últimas semanas, importantes banqueiros centrais vêm enfatizando sua preocupação com a inflação mundial, indicando que o momento do reconhecimento se aproxima. Que reflexos isto terá sobre a economia brasileira?

Felizmente a dívida externa em proporção ao PIB é menos do que 1/3 inferior ao que era em 2002; as reservas internacionais se aproximam de US$ 200 bilhões; e o governo eliminou seu passivo em dólares. Com isso, os anos das "paradas bruscas de fluxos de capitais" ficaram no passado. Mas isso não significa que o Brasil tenha se tornado imune às variações da economia internacional. Como ocorre com todos os exportadores de commodities, o câmbio real no Brasil varia inversamente com os preços internacionais de commodities. Há, por outro lado, uma extrema dependência da formação bruta de capital fixo com relação às importações: o barateamento das importações é, também, o barateamento das máquinas e equipamentos importados, elevando a taxa de investimentos. Significa que a inflação mundial levou à valorização do câmbio real, estimulando os investimentos e acelerando o crescimento do PIB. Este é o "presente" que o mundo nos deu nos últimos anos. A má notícia é que o mundo está prestes a nos mandar a conta.


Quando entrarmos no inevitável ciclo inverso, de queda dos preços internacionais de commodities, assistiremos este filme rodado ao contrário. A queda dos preços de commodities levará à depreciação do câmbio real, contraindo investimentos, e ao elevar a relação câmbio/salários estará também reduzindo os salários reais e o consumo das famílias. Este é o caminho através do qual os déficits nas contas correntes se reduzirão para acomodar a perda nas relações de troca.

Há duas ações que minimizam estes custos. A primeira delas é iniciar precocemente o combate à inflação, o que já vem sendo feito pelo Banco Central. A segunda é mudar a política fiscal, elevando os superávits primários, não para 4,3% do PIB, que é um nível no qual ele já vem se mantendo há mais de um ano, sem nenhum efeito sobre a inflação, mas para valores bem mais elevados. O déficit nas contas correntes é idêntico ao excesso da absorção sobre o PIB e, se o consumo do governo for cortado, as outras duas componentes da absorção - o consumo das famílias e os investimentos - podem manter-se mais elevados. Mas o governo discorda deste diagnóstico e prefere continuar gastando, na esperança de manter elevada a popularidade do presidente Lula e a probabilidade de eleger o seu sucessor. Como os tempos mudaram e a inflação atua na direção contrária, seria mais inteligente somar forças no seu combate.


Affonso Celso Pastore e Maria Cristina Pinotti são economistas e escrevem mensalmente às segundas.

Projeções para o PIB de 2009 já caem e variam de 3% a 4,1%

Sergio Lamucci
O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano deve beirar os 5%, mas o panorama para 2009, visto de hoje, é bem menos promissor. O aumento dos juros iniciado em abril só deverá bater com força sobre a economia no ano que vem, devido aos efeitos defasados da política monetária. Segundo o relatório Focus, os economistas ouvidos pelo Banco Central (BC) apostam numa expansão de 4% em 2009, mas já há quem acredite numa taxa bem mais baixa, na casa de 3%.

Além do menor ritmo, a composição do crescimento do produto interno no próximo ano será diferente, com perda mais expressiva do investimento - para este indicador, após três anos de crescimento acima de dois dígitos, os economistas projetam alta entre 3,9% e 6,5%, apenas.

O aperto monetário em curso pode produzir algum efeito ainda em 2008, mas um crescimento próximo a 5% parece bastante factível, avalia a economista Marcela Prada, da Tendências Consultoria Integrada, que prevê alta de 4,9%. Ela observa, porém, que o PIB vai começar uma trajetória de desaceleração ainda neste ano. Além de algum impacto dos juros, a inflação vai "comer" parte da renda, afetando o consumo, e a demanda externa será mais fraca, diz ela.

Para 2009, o quadro será mais complicado em termos de atividade econômica, principalmente por causa do efeito do ciclo de alta dos juros. Marcela acredita que a taxa Selic, hoje em 12,25% ao ano, terminará 2008 em 14,25%, só voltando a cair no fim do ano que vem, para 13,5%. Nesse cenário, a Selic média de 2008 ficaria em 12,3% e a de 2009, em 14,1%.

"As nossas projeções indicam um crescimento ainda elevado da demanda interna neste ano e desaceleração em 2009. Isso deve ocorrer no consumo das famílias, no do governo e principalmente no investimento", afirma Marcela. Ela estima que a expansão do investimento caia de 11,4% neste ano para 6,5% no ano que vem, em parte devido à política monetária mais apertada. Além disso, depois de três anos de crescimento forte, o que tem levado a um aumento da capacidade produtiva das empresas, é natural que haja um arrefecimento do ritmo de inversões na economia.

O economista Fernando Rocha, da JGP Gestão de Recursos, traça um cenário parecido ao de Marcela. Ele prevê um crescimento do PIB de 5% neste ano e de 4% no ano que vem, com a demanda doméstica (consumo das famílias, consumo do governo e investimento) perdendo bastante fôlego. Dos 5% previstos para a evolução do PIB este ano, 7,5 pontos percentuais devem vir do mercado interno, diz ele, enquanto o setor externo deve contribuir negativamente com 2,5 pontos, devido à expansão das importações bem superior à das exportações.

Para 2009, Rocha estima que a alta de 4% será formada por 5,3 pontos da demanda doméstica, enquanto o setor externo deverá tirar 1,3 ponto do PIB. A exemplo de Marcela, ele avalia que o investimento será o componente da demanda mais afetado pela política monetária em 2009.


O consumo das famílias também não vai ser ileso desse processo. Marcela estima um crescimento de 5,8% no ano que vem, uma desaceleração em relação aos 7% previstos para 2008. Segundo ela, o crédito deverá avançar a um ritmo modesto, depois de anos de expansão forte. O mesmo vai ocorrer com a massa salarial. Marcela prevê uma alta de 5% neste ano e de 4,7% em 2009 para este indicador.

Há analistas com um cenário bem mais pessimista para o comportamento do PIB em 2009, como o economista-chefe do Morgan Stanley, Marcelo Carvalho. Ele aposta em alta de apenas 3%, com forte desaceleração do investimento e do consumo das famílias. Para Carvalho, o investimento é o componente mais volátil da demanda. O seu ritmo de expansão deve cair de 11,1% neste ano para apenas 3,9% em 2009, estima ele. "O investimento sobe mais em momentos de queda dos juros, e sofre mais quando eles estão em alta", pondera o economista do Morgan Stanley.

Em seu cenário básico, Carvalho considera que o BC vai elevar a Selic para 14,25% no fim do ano. Ele não descarta, porém, uma alta mais forte dos juros, dependendo do comportamento das expectativas de inflação. Os modelos de Carvalho indicam que, se a inflação prevista para os próximos 12 meses, hoje em 4,81%, se estabilizar na casa de 5% até o fim do ano, os juros não precisam subir além de 14%. No entanto, se as expectativas ficarem próximas de 6% será necessário elevar a Selic para 16%. A meta de inflação para este ano e para o próximo, vale lembrar, é de 4,5%, com um intervalo de tolerância de 2 pontos percentuais, para cima ou para baixo.

O diretor de Economia e Renda fixa da Unibanco Asset Management (UAM), Alexandre Mathias, também tem uma projeção pessimista para o PIB em 2009: 3,25%, com a Selic batendo em 14,5% no fim de 2008. Mathias considera que os juros podem ter que subir ainda mais, o que faria o PIB crescer menos. "A questão é que o cenário para a inflação está muito indefinido", diz ele.

Segundo ele, há uma extrema dificuldade em se prever o comportamento dos preços de alimentos, onde o descompasso entre oferta e demanda continua. Para piorar, as expectativas de inflação começaram a subir com força, o que pode requerer uma ação mais enérgica do BC para fazer o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) voltar para a trajetória das metas. A sua previsão oficial é de um IPCA de 6% neste ano, mas ele não descarta um indicador entre 6,2% e 6,6%.

A herança estatística é outro fator a conspirar contra o PIB de 2009. O crescimento de 5,4% de 2007 deixou para este ano um "carry over" de 2,5 pontos percentuais, o que significa que, se a economia não crescer nada em relação ao nível atingido no fim do ano passado, o PIB registrará uma expansão de 2,5%. Para 2009, o número será mais baixo. Se a expansão do PIB de 2008 ficar em 5%, como prevê Rocha, a "herança estatística" deve ficar na casa de 1,7 ponto.

O número tende a ser bem mais baixo porque a variação do PIB de um ano é obtida pela comparação da média do crescimento de um ano com a média do ano anterior. Em 2007, a economia foi ganhando força ao longo do tempo, terminando num nível muito mais elevado do que o registrado no começo do ano - ou seja, a média ficou bem abaixo do patamar atingido no fim do ano. Neste ano, porém, a expectativa é de uma alta mais moderada, com o PIB avançando mais lentamente no segundo semestre. Como o patamar do fim de 2008 não ficará tão acima da média do ano, o resultado será uma herança estatística menor para 2009.

Inevitável, aperto nos EUA já afeta mundo

Ainda bem que a política monetária do Federal Reserve (Fed), ao contrário da praticada pelo Copom, mira o núcleo da inflação americana. Se o alvo fosse, como aqui, o índice cheio deveria estar preparando um choque de juros e esta reta final para a próxima reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, em inglês), marcada para o dia 25, seria um tormento. Na sexta-feira passada, saiu nos EUA um índice de preços ao consumidor digno do Brasil. O CPI saltou 0,6% em maio, vindo de um alta de 0,2% no mês anterior, o suficiente para acumular em 12 meses 4,2%. Ou seja, transplantado para cá, o índice americano estaria bem perto da meta de 4,5%. Só que o núcleo ainda se mostra razoavelmente comportado.

O ideal seria core abaixo de 2% em 12 meses, mas não está muito longe disso, a 2,3%. Os índices americanos do atacado refletem, como os nossos IGPs, as disparadas de preços registradas pelo petróleo e pelos alimentos. Amanhã, sai o PPI de maio. A expectativa é de uma aceleração de 0,2% em abril para 1% em maio. Em termos anuais, o índice cheio subirá de 6,5% para 6,7%. Tanto em relação ao CPI quanto ao PPI, os números exigem do Fed o mesmo posicionamento adotado pelo Copom desde abril. Mas lá não é tão fácil como aqui subir o juro. Por isso, a estrutura a termo da taxa de juros americana (a chamada curva de longo prazo) persiste embutindo a expectativa de manutenção do juro em 2% na reunião do Fomc da quarta-feira da semana que vem. Mas a taxa não escapa de uma alta de 0,25 ponto na reunião seguinte, agendada para 5 de agosto. Para um fed fund de 2%, a taxa do título de dois anos do Tesouro americano alcança 3,02%, o juro do de 5 anos atinge 3,72% e o papel de 10 anos oferece 4,26%.

O Fomc não tende a antecipar para o dia 25 o início do ajuste monetário por várias razões. A primeira é que o ajuste imediato não foi exaustivamente sinalizado por meio de comunicações formais do Fed. O Fed, até mais do que o Copom, não gosta de surpreender Wall Street. A segunda é que ainda há dúvidas sobre o grau de desempoçamento da liquidez alcançado pela flexibilização iniciada em setembro do ano passado. Ao todo, ela derrubou a taxa básica de 5,25% para 2%, irrigou liquidez, evitou a quebra de bancos e impediu que a economia se contraísse. Hoje a visão do pouso suave é a mais em voga. Mas o sistema bancário já está sólido o suficiente para aguentar um deslocamento de alta do juro? Ninguém sabe. Daí se conclui que a alta será bem gradual e não linear. Tanto que o objetivo maior do miniarrocho é provocar uma valorização internacional do dólar. "Elevar os juros lá não é tarefa simples", diz o economista-chefe da Gradual Corretora, Pedro Paulo Silveira. "Há muitas implicações em vários setores e o remédio pode causar mais danos que melhorias".

Não se descarta por isso que o dólar venha a se corrigir por outro movimento: o da reversão na balança comercial. A balança comercial americana, observa Silveira, parece estar revertendo sua trajetória francamente deficitária. Este movimento é causado pela alta significativa dos preços dos importados, a maior desde 1983. Este refluxo do comércio nos EUA pode enxugar dólares da praça e, num segundo momento, forçar sua valorização da moeda. Trata-se, porém, de efeito que poderá ser verificado apenas no médio prazo. "Forçar a valorização do dólar no curto prazo via o aumento na taxa básica pode colocar os outros objetivos da política econômica americana (emprego, nível de atividade e saúde do sistema financeiro) em risco desnecessário", adverte o economista. As consequências mundiais de uma valorização apressada do dólar não podem ser subestimadas. Ao corrigir o fenômeno monetário da inflação o Fed não "ataca" a causa da inflação mundial: a demanda acelerada de países em desenvolvimento.

Apreciar o dólar agora iria simplesmente empurrar a inflação dos EUA para outras economias. A desvalorização das moedas globais poderia reforçar um clima de pessimismo generalizado. O que aconteceria, por exemplo, com a inflação brasileira se o dólar voltasse a ser cotado a R$ 2,00, um piso que foi rompido faz pouco tempo, em 15 de maio de 2007, há um ano e um mês, portanto? Para tanto, considerando que a moeda fechou sexta-feira cotada a R$ 1,6360, teria de subir 22,25%. Uma alta desta magnitude engoliria completamente o ganho que os fundos externos têm com aplicações de renda fixa remuneradas com base na variação da Selic. A perspectiva de perda ampliaria o overshooting cambial. O avanço do dólar reduz o preço das commodities, afetando o valor exportado pelo Brasil. Pode ajudar a reduzir o déficit em conta corrente se as importações ficarem muito caras. Mas isso tem de novo impacto direto sobre a inflação. Ainda bem que, essencialmente, Ben Bernanke tem pouca coisa de Paul Volcker.

Luiz Sérgio Guimarães é repórter de finanças
luiz.guimaraes@valor.com.br

domingo, 15 de junho de 2008

Tiger Woods

por Publications Ltd. - traduzido por HowStuffWorks Brasil

Tiger Woods tem sido o garoto-propaganda do jogo de golfe há quase vinte anos. Isso é impressionante se considerarmos que ele tem trinta e poucos anos.

O mundo do golfe não tinha visto nada como Woods desde Jack Nicklaus, que surgiu em cena quase quatro décadas atrás.

Tiger Woods
Tiger Woods estava destinado à
grandeza desde muito pequeno.
Ele aprendeu a girar o taco
imitando seu pai, Earl.

Como Nicklaus, Woods compilou um recorde amador impressionante e o sucesso instantâneo era esperado quando ele chegou ao PGA Tour (Torneio da Associação Profissional de Golfe).

Também como Nicklaus, Tiger não decepcionou, ganhando um importante campeonato em seu primeiro ano como profissional. E como o jovem Nicklaus, Woods lançava a bola tão mais longe que os outros profissionais que parecia estar jogando um jogo diferente.

De fato, Woods provocou um impacto ainda maior no jogo de golfe do que Nicklaus. Por um lado, Woods tem sangue afro-americano (também asiático e um pouquinho de índio-americano), o que é significante porque não havia jogadores negros no circuito profissional quando ele apareceu. Ele também tem um estilo ofensivo e emocionante e um sorriso carismático.

Quando Woods está disputando um torneio, a presença do público e a audiência da TV vão às alturas. Woods tem o tipo de apelo em massa que atrai novos jogadores para o jogo, como Arnold Palmer fazia.

Se algum golfista estava destinado à grandeza desde cedo, esse é Woods. Tiger, que cresceu nos subúrbios de Los Angeles e aprendeu a girar o taco imitando seu pai, Earl, fez sua primeira incursão no driving range (área do campo reservada ao aprendizado do golfe) com apenas 18 meses de vida. Aos dois anos, ele venceu um torneio para crianças com até 10 anos e apareceu no Mike Douglas Show. Aos oito, quebrou 80 pela primeira vez. Aos 12, quebrou 70. Aos 14, ele começou a vencer os torneios juvenis nacionais para jogadores com até 17 anos.

As maiores realizações amadoras de Woods aconteceram nos eventos do USGA. Antes dele, nenhum jogador havia ganho o Torneio Amador Júnior dos EUA mais de uma vez. Woods ganhou três vezes seguidas, começando aos 15 anos (o mais jovem a ganhar o título). Ele continuou a disputar o torneio tornando-se o mais jovem campeão amador norte-americano, aos 18 anos. Quando conquistou o Amador dos EUA novamente, aos 19 e aos 20, se tornou o primeiro jogador a ganhar esse torneio três vezes seguidas.

Muitas dessas vitórias ocorreram de maneira dramática. Em sua terceira vitória no Júnior dos EUA, Woods estava dois abaixo do par e tinha mais dois buracos para jogar. Ele conseguiu birdies em ambos, e depois ganhou no primeiro buraco extra na decisão por morte súbita.

Woods conquistou seu primeiro Amador dos EUA recuperando-se de seis abaixo do par após 13 buracos numa final com 36 buracos e obtendo uma vitória de 2-up sobre Trip Kuehne. Ele conquistou seu terceiro título atacando a partir de cinco abaixo do par após 18 buracos para vencer de Steve Scott no 38º buraco.

Nessa época, Woods havia completado dois anos na Universidade de Stanford e conquistado uma vitória no Campeonato NCAA, e a especulação no mundo do golfe voltou-se para quando ele se tornaria profissional. Woods deu esse passo imediatamente após sua terceira vitória no Amador dos EUA, encorajado por muitos profissionais vitoriosos que diziam que ele já estava pronto para o Torneio e que a faculdade e o golfe amador não teriam mais interesse para ele.

A Nike imediatamente ofereceu a ele um contrato de patrocínio de US$ 40 milhões e, em seguida, a Titleist ofereceu outros US$ 20 milhões. Naquela época, muitos questionaram se Woods merecia isso, uma vez que ele ainda não havia sido testado no Torneio. Rapidamente ele demonstrou que merecia cada centavo.

Ele foi um fenômeno no sentido estrito da palavra. Mesmo seus colegas profissionais reverenciaram sua distância do tee, realizada com a eficiência de seu swing em vez da força bruta (ele tem 1,88 de altura e pesa 70 quilos). E ele levou multidões de espectadores aos campos, particularmente os jovens que, de outra forma, não se interessariam pelo golfe.

A Tigermania continuou até 1999. No final dessa temporada, Woods havia acumulado oito vitórias, incluindo vitórias nas finais de quatro eventos. Woods entrou o ano novo com sua quinta vitória consecutiva. Aquela se tornou sua melhor temporada até então, com três vitórias consecutivas nos torneios mais importantes, nove eventos totais do Torneio PGA, estabelecendo ou igualando 27 recordes no Torneio.

O final de 2000 não interrompeu os caminhos vitoriosos de Tiger. Sua vitória no Masters no início de 2001 fez dele o detentor dos títulos de todos os quatro mais importantes torneios ao mesmo tempo: o U.S. Open, o Campeonato da PGA, o British Open e o Masters. E em 2002, sua classificação em primeiro lugar nos Masters o colocou ao lado de Nick Faldo e Jack Nicklaus como os únicos homens a conseguir vencer os eventos Masters consecutivamente.

Em 2003 e 2004, Woods caiu para um nível mais mortal quando retrabalhou seu swing. Apesar de Woods não ter ganho um grande evento durante esses dois anos, ele ainda venceu seis eventos enquanto lidou com severas críticas da mídia: correram fortes boatos quanto à alegada tensão entre Tiger e seu treinador de swing, Butch Harmon.

Mas enquanto havia a especulação sobre se Tiger conseguiria voltar ao topo, ele próprio já estava se preparando para outra temporada dominante. Woods iniciou 2005 ganhando seu primeiro grande evento desde 2002, obtendo o primeiro lugar no Masters e impressionando a multidão com um chip inacreditável no buraco nº 16, em Augusta: a bola quicou no campo, quase em câmera lenta, apenas para circundar o buraco por um momento que pareceu uma eternidade antes de tinir no fundo do buraco. Woods estava de volta.

A vitória de Woods por 12 abaixo do par sobre Colin Montgomerie naquele Masters o colocou no topo do Ranking Oficial do Golfe Mundial novamente. Logo depois, Woods conquistou seu 10º título importante, vencendo o British Open por uma margem de cinco tacadas. No final de 2005, Woods havia ganho seis eventos oficiais com prêmios em dinheiro e liderou a lista financeira pela sexta vez em sua carreira.

Ao mesmo tempo em que Woods iniciou a temporada de 2006 no topo do jogo, sua vida pessoal passou por um revés devastador. Seu pai, Earl Woods, morreu em 3 de maio daquele ano após uma longa batalha contra um câncer na próstata, e Woods se despediu dos torneios e se ausentou por um período de nove meses.

Porém, não demorou muito para Woods retornar. Woods ganhou o British Open de 2006 disparando 18 abaixo do par, apenas um ponto a menos que seu recorde de 19 abaixo do par estabelecido em 2002. A emoção falou mais alto quando Woods dedicou a vitória ao seu pai.

Em 2007, somente 10 anos após sua primeira grande vitória, Tiger Woods permaneceu no topo não apenas do seu jogo, mas do mundo do golfe inteiro. O início do ano trouxe novidades sobre o abrangente domínio de Tiger no mundo do golfe: Woods anunciou que organizaria seu próprio torneio no mês de julho. O torneio baseado em Maryland que, na verdade, é organizado pela fundação homônima de Tiger, foi apelidado de AT&T National e substituiu o extinto Internacional anteriormente mantido fora de Denver. Ainda que o AT&T National não tivesse o nome de Tiger oficialmente ligado a ele, o evento ganhou fama como o "Torneio de Tiger."

Julho de 2007 significou grande mudanças para Tiger: seu torneio, o AT&T National, foi um sucesso esmagador, ele obteve o segundo lugar no U.S. Open em 17 de julho e, apenas um dia após o U.S. Open, ele e sua esposa, a modelo sueca Elin Nordegren, tiveram seu primeiro filho, Sam.

No mês seguinte, Tiger anunciou planos para projetar seu primeiro campo de golfe nos Estados Unidos: o Cliffs, um campo particular localizado nas montanhas.

Indubitavelmente, o impacto da Tigermania afetará golfistas e fãs das próximas gerações. Enquanto Michael Jordan ainda é o atleta mais famoso do mundo, Jordan pode ser conhecido em breve como o "Tiger Woods do basquete".

Deus já deu a mãozinha

13/06/2008 17:17:47

Redação CartaCapital

Antonio Delfim Netto Foi professor da USP, deputado federal eleito de 1986 a 2002, ministro do Planejamento, entre 1979 e 1985, e embaixador do Brasil na França de 1975 a 1977. Hoje, é um conselheiro informal do presidente Lula e uma mente lúcida a serviço do debate.

CartaCapital: Contra um determinado senso comum, o senhor aponta diferenças entre a política econômica de Lula e a de Fernando Henrique Cardoso. Quais são as principais?
Delfim Netto:
Não deixa de ser um pouco ridículo alguém imaginar que é dono de uma política. É como se a política econômica do governo Fernando Henrique tivesse sido produzida por ele. Nos primeiros quatro anos, ela estava implícita no programa do real, feito certamente por profissionais de alta qualidade, quando FHC era ministro da Fazenda. O resultado foi bastante razoável. O Plano Real, do ponto de vista do combate à inflação, foi extremamente eficaz, mas deixou como resíduo algumas coisas terríveis. Tanto é verdade que o Brasil quebrou em 1998. No combate à inflação, o real dominou todos os outros planos: o argentino, o israelense e o mexicano, por exemplo. Sob a ótica do crescimento, ele foi o pior de todos. Gerou uma situação externa insolúvel. Tanto que o Brasil teve de correr ao FMI e conseguir um empréstimo importante. Naquele momento, o Fundo salvou o País, pois certamente Lula não estava preparado para a situação. O PT não tinha sequer entendido do que se tratava. A sucessão teria sido uma tragédia sem o auxílio do FMI. Fernando Henrique reelegeu-se, mas quem mudou tudo foi o Fundo. Era a política canônica que existe no mundo inteiro hoje: relativo equilíbrio fiscal, política de controle de inflação por meio de metas e câmbio flutuante. Hoje há uns 150 países que usam o mesmo tipo de política. O que Lula fez na verdade? Primeiro, radicalizou essa política canônica, porque em 2002 o Brasil estava falido de novo. Basta olhar o seguinte: entre 1998 e 2002, a dívida externa crescia a 6% ao ano e a exportação, a 4%. Não é preciso ser físico quântico para saber que estava quebrando. Na transmissão do cargo de FHC para Lula, a inflação rodava a 30% ao ano. E as reservas, excluídos os recursos do FMI, eram de 17 bilhões de dólares. Aquilo era uma falência programada, tanto que diziam que Lula seria “Lula, o Breve”.

CC: Atribuiu-se a crise à possível eleição de Lula.
DN:
É uma coisa ridícula dizer que o câmbio chegou lá em cima simplesmente por causa de Lula. O câmbio subiu porque o Brasil tinha quebrado. O presidente aumentou a taxa de juros, como as pessoas não imaginavam que ele fosse fazer, e elevou o superávit primário. É preciso dizer que, nos primeiros anos do governo FHC, o superávit primário foi zero. No segundo, foi de 3,8%, por exigência do FMI. Como diz Lula: “Eu e a mãozinha de Deus resolvemos o problema”. A mãozinha de Deus foi a expansão do lucro. Acontecem coisas que são até curiosas e interessantes. A exportação no governo FHC crescia entre 4% e 4,5% anuais. No primeiro ano de Lula, aumentou 22% e continuou nesse ritmo até o ano passado. Foi isso que colocou o Brasil numa situação muito mais tranqüila e permitiu a acumulação das reservas internacionais. Porém, avançamos muito pouco. A participação do Brasil no comércio internacional era de 1,2% em 1984, terminou em 0,9% com FHC e Lula simplesmente o elevou a 1,2%. Quer dizer, nós voltamos para 1984.

CC: Em comparação com o período de FHC, como o senhor avalia a política comercial externa hoje, tanto em relação à opção por países vizinhos ou da África, como às iniciativas do Itamaraty? Houve mudanças?
DN:
Há uma mudança muito mais formal do que real. Mudança real acontece independentemente dos governos. Quem faz comércio não é o governo. É o setor privado, que tem interesses e não tem nacionalidade. O Brasil exporta para a África porque possui um pouco mais de capacidade competitiva lá do que em outras regiões. Pode-se escolher o parceiro, uma coisa um pouco melhor, uma solidariedade tribal, mas não é isso que provoca a mudança do comércio. A mudança é produzida por interesses. Isso mostra o seguinte: não aumentamos nossa inserção mundial. E temos um problema sério, pois o movimento de relação de preços de minerais e de agricultura não é seguro. Há 250 anos de estatísticas confiáveis mostrando que o PIB global flutua. Flutuou no regime do padrão-ouro, no câmbio fixo e no flutuante. Os ciclos têm períodos e amplitudes diferentes. É pouco provável que esse ciclo vá continuar. O aumento dos preços das matérias-primas se deve, de um lado, à expansão do mundo. De outro, é o retrato da desvalorização do dólar, porque o preço do petróleo não está alto apenas porque a demanda de petróleo cresceu mais do que a oferta. Está onde está porque os produtores de petróleo tentam manter seu poder de compra no mercado internacional. Como a unidade de conta é o dólar, o preço é desvalorizado naturalmente. Como se houvesse correção monetária. O segundo fator é que realmente a curto prazo a demanda cresceu muito mais do que a oferta. O terceiro ponto é claro: somos muito beneficiados por isso, mas quando olhamos o futuro, o desenvolvimento da oferta, tanto dos produtos minerais como dos agrícolas, há problemas. Porque no caso do mineral, toda tecnologia é poupadora de mão-de-obra, e esse é um produto finito. No caso da agricultura, o desenvolvimento poupa a mão-de-obra e a terra. Basta olhar o seguinte: para produzir 1 litro de álcool hoje, é preciso um terço da terra do que no passado. E o desenvolvimento tecnológico vai nessa direção. Em 20 anos, o Brasil terá 250 milhões de habitantes e serão necessários empregos decentes para 140 milhões de sujeitos entre 15 e 65 anos. Empregos não são gerados com a exportação de minérios e de produtos agrícolas. Essa visão míope prevaleceu, pois desde 1985 nunca mais se pensou nesse problema.

CC: O senhor acha que Lula consegue se virar sem “a mãozinha de Deus”?
DN:
Deus já fez o que podia. Deu essa mãozinha, depois mandou descobrir o petróleo aqui, descobrir o álcool, e avisou que só existem duas coisas que abortam o crescimento: falta de energia e déficit em contas correntes não financiadas. Como se dissesse: “Te dei uma mão para resolver a primeira e uma mão para resolver a segunda. Agora cuide de si, que eu também tenho de pensar na África e na Ásia”.

CC: Energia e conta corrente são condicionantes para o desenvolvimento?
DN:
Sim. Vamos pensar primeiro na energia. Estávamos passando por dificuldades em 1998, uma saia-curta danada, tivemos sorte de novo. Deus ainda disse: “Mais uma vez, vou te dar uma mãozinha”. Para 2009, a situação é muito melhor. O problema do gás foi uma barbeiragem enorme em 2008. Está praticamente resolvido. Será possível importar gás líquido e a coisa vai caminhar. Não haverá problema de oferta. Mas surgirá o problema de aumento de custo marginal de energia, uma coisa desagradável, mas não é o drama da escassez. O governo está acelerando as hidrelétricas, o rio Madeira está funcionando e a usina de Jirau vem aí. Em energia, estamos resolvidos para os próximos 25 anos. Já em conta corrente, não. Temos ainda o bônus que foram os 200 bilhões de dólares de reservas internacionais. A única solução nossa para se ter tranqüilidade, para garantir o crescimento nos próximos 15 anos, é desenvolver um programa industrial exportador.

CC: O câmbio não impede o desenvolvimento industrial?
CN:
O câmbio é um problema gravíssimo, porque o Brasil repete um erro que teve início em 1985. Cada vez que o governo teve a oportunidade de usar o câmbio de uma maneira oportunista, para controlar a inflação, não funcionou. É o que acontece hoje. Na verdade, o canal mais eficiente que o Banco Central dispõe é o câmbio. O BC não quer reconhecer o fato de que esse erro produziu a supervalorização do real. É certo que o câmbio do Brasil tinha de se valorizar de qualquer jeito. Primeiro, porque é o espelho da desvalorização do dólar. Segundo, porque houve no País uma mudança estrutural. A oferta de petróleo interna cresceu muito. Chegamos a gastar 45% das exportações para importar petróleo. Hoje, apenas 1%. Em três anos, seremos exportadores. É normal um pouco de valorização do câmbio. Já a supervalorização é produzida por uma especulação no mercado virtual, resultado do diferencial do juro interno e externo. Isso é uma coisa fantástica. Uma aplicação na bolsa brasileira rendeu 70% em dólares em 2007. O efeito sobre o câmbio é devastador. O Brasil é hoje o maior peru disponível no mercado internacional, fora do Dia de Ação de Graças. O único mecanismo para corrigir o câmbio hoje seria um movimento combinado de corte da despesa do governo e simultaneamente baixar o juro. O que não é possível é reduzir o gasto do governo, com o juro onde está. É preciso uma coordenação melhor entre a política fiscal e a monetária.

CC: Onde o governo atua mal?
DN:
Em todo lugar. O governo é a coisa mais ineficiente do mundo. A educação e a saúde são exemplos típicos. Na verdade, é um sistema muito bom, em que todo mundo tem dois empregos. Você sabe por que é bom ter dois empregos? Porque você sempre está no outro. Não vamos ter ilusão. Não gastamos pouco nem em educação, nem em saúde. Hoje eu vejo os dois ministros extremamente antenados com esse problema, tanto Haddad (da Educação) como Temporão (Saúde). O programa Bolsa Família é um gasto correto, porque permite aquele mínimo de igualdade e de oportunidade que torna o regime capitalista moralmente aceitável.

CC: Mas há críticos do uso do programa para comprar eletrodomésticos, por exemplo, e não comida.
DN:
Os cidadãos estão angustiados e hoje têm acesso a um mínimo de conforto. Eles têm pressa. Qual é a nossa tarefa? Mostrar para eles que não é errado ter pressa. Mas o excesso dela não vai levar a nada. Existe um trade off (troca) entre o presente e o futuro. Precisamos dar a garantia de que o futuro também existe para qualquer brasileiro. Assegurar que terá igualdade de oportunidades às do meu filho em cinco ou dez anos. Se o País quer ampliar o consumo hoje, tem de pagar o preço de menor crescimento no futuro. Não é possível simplesmente dizer: “Espera aí. Eu não estou fazendo nada e o futuro vai acontecer por gravidade”. Esta é a mudança de Lula. Ele é um sobrevivente. É o único sujeito no Brasil que quando fala de pobre está falando de pobre. Os outros todos são cínicos.

CC: O BNDES tem tomado algumas iniciativas para patrocinar a formação de grandes empresas nacionais, como no setor de telecomunicações.
DN:
Onde existem ganhos de dimensão, são iniciativas muito úteis. Nos setores farmacêutico e petroquímico, uma grande empresa pode sim ajudar a construir vantagens comparativas. Essa é outra grande diferença entre os economistas. O grosso deles, ao menos os que se pensam cientistas, acha que a vantagem comparativa é presente de Deus. Se ele deu, deu, se não, paciência. Os mais agnósticos consideram que a vantagem comparativa pode ser construída. O Brasil mostrou que pode. Corretamente, o BNDES tenta encontrar setores onde é possível auxiliar a formação de grupos nacionais que usem a melhor tecnologia possível, porque existe um mercado interno razoável e perspectivas no mercado externo.

CC: A política industrial exportadora não pode ser abortada justamente pela política monetária, que usa o câmbio para conter a inflação? Não é mais uma coisa que pode ficar no papel?
DN:
Eu não acredito que o governo seja tão tolo e que não esteja pensando em uma coisa mais completa. Não há nenhuma necessidade de o Brasil ter o maior juro do mundo. E, pior, não há nenhuma necessidade de o BC prometer aumentar ainda mais a taxa real, nos próximos 12 meses. O Brasil é um País hoje pronto para conviver com uma Selic de 8,5% ou 9%. Estão falando em 13,75%. Mas para quê? Para quem? O Brasil é o único lugar onde o banqueiro diz ter prejuízo quando o juro sobe. É um País estranho. É só olhar o merchandising combinado, o minueto dançado entre o BC e o sistema financeiro para aumentar o juro. Só existe uma medida radical para o Brasil: estatizar o Banco Central.

CC: Existe uma clara falta de sintonia entre diferentes grupos do governo que deveriam estar mais harmonizados: Fazenda, Banco Central e Planejamento. Cada um olha para um lado.
DN:
Por que eu tenho esperança? Porque confio na intuição de Lula. Ele tem uma inteligência absolutamente privilegiada. É o Darwin andando. Possui uma consciência clara de que é preciso produzir essa coordenação. Em algum momento, Lula vai fazê-la. Tenho pelo presidente uma grande admiração, porque ele realmente colocou o País num caminho com futuro. Eu não vejo nenhuma razão para o Brasil não continuar crescendo 5,5%, 6% ou 7% nos próximos 20 anos.

CC: E a crise alimentar?
DN:
No caso do Brasil, é ridículo. O País tem aumentado simultaneamente a produção de biodiesel e de alimentos. A produção de cana-de-açúcar não só é compatível, como concomitante com a produção de alimentos. No caso brasileiro, por que subiram os preços? Tivemos vários problemas, inclusive a lamentável política agrícola. Na verdade, o Brasil explora os agricultores desde o início do real. No início do plano, prometeram o lago azul ao agricultor. Mas eles esvaziaram a piscina para o pessoal se jogar lá e cair do trampolim sem água. A agricultura carrega uma dívida enorme. Não porque não quer pagar, mas porque não tem renda e falta um fator importantíssimo: não há seguro de safra. Essa é uma das coisas fundamentais, que precisa ser aperfeiçoada, com a presença de seguradoras privadas.

CC: Mas o mercado de seguros não está aberto?
DN:
Sim, mas não existe um sistema que garanta preços mínimos adequados, sistema de transportes e de comercialização. O seguro de safra foi embora. Esse é um dos problemas que temos de enfrentar. É o seguro de renda, senão haverá sempre dificuldade de financiar o setor. O que me parece mais grave é que houve aumento de todas as safras de alimentos. A Organização Mundial do Comércio (OMC) estimulou a eliminação dos estoques. Toda a política está errada, não só interna, como externamente. Estamos colhendo os efeitos disso. O preço da soja não depende mais apenas da oferta, da demanda e do estoque. Depende da ação dos hedge funds nos mercados futuros. A moralidade do sistema financeiro é um conjunto vazio, que opera de acordo com suas regras. Que regras são essas? O maior lucro possível, no menor tempo possível, com o maior bônus possível. É só pegar o bônus e comprar títulos do Tesouro americano, para descansar na Flórida. Uma boa parte da especulação com as commodities vem disso. Por exemplo, em Rondonópolis, o cara que produz soja está sentado à mesa com um laptop, cobrindo suas posições em Chicago, o que é absolutamente legítimo. Essa é a operação de hedge (proteção) correta. Mas entram fundos especulativos e puxam o preço da soja em 10%. Aqueles que fizeram o hedge legítimo têm de cobrir a margem. O custo de aumento de margem cairá em cima do produtor. Os especuladores são um mal. Temos de exportar essa gente para Marte, como exportamos a inflação.

CC: Os bancos centrais não têm mecanismos de controle para coibir excessos?
DN:
Não há mecanismos, porque foi permitida uma liberdade imensa. Seria legítima se os operadores respeitassem o que o velho Adam Smith dizia: “Dentro do seu peito, o observador é imparcial”. Ele era um sujeito que tinha um comportamento moral impecável, expresso no livro A Riqueza das Nações. Fazer o que é moralmente certo. Não o que produz a maximização do lucro, não o que produz o mal. A amoralidade é um fato inerente aos instrumentos do mercado financeiro. O agente moral foi expulso do banco, pois era quem não dava tanto lucro, não recebia bônus. Agora está todo mundo reunido, o FMI, o Banco de Compensações Internacionais (BIS), tentando encontrar mecanismos. O Brasil é um exemplo típico disso. Não existe sistema financeiro mais sofisticado que o nosso. Aqui, a Bovespa e a BM&F são instituições no estado-da-arte: a Bovespa com governança corporativa e a BM&F com todo tipo de produto. Por isso, o diferencial de juro interno e externo causa tanto estrago. Porque é possível ganhar dinheiro fácil com grande eficiência. A imoralidade não está nos instrumentos, mas no uso que os agentes fazem deles. Obviamente, essa liberdade produziu algum ganho de produtividade. Para se conservar isso, é necessário encontrar agentes que tenham dentro de si essa moralidade do tipo: “Eu lhe dou toda a liberdade, mas você não pode matar a sua mãe”.

CC: O senhor concorda que há uma mudança no eixo do desenvolvimento do Brasil?
DN:
Esse é outro fato importante, porque há 25 anos foi esquecido o fato de que não é suficiente só dar igualdade de oportunidades. É preciso igualar o País geograficamente. O Nordeste, o Centro-Oeste e a Amazônia têm de iniciar um processo de desenvolvimento. O crescimento capitalista é concentrado, porque há ganhos de aglomeração. A tendência é juntar tudo em torno da cidade, como São Paulo. Os economistas antigamente tinham a teoria da localização. Nada se situava fora do centro consumidor e produtor de matéria-prima. Hoje, aprendemos que é possível instalar uma fábrica de automóveis em um lugar onde o economista diz que é errado, mas que o político considera certo. Cinco anos depois, prova-se que o economista estava errado, porque em volta da fábrica é formado um pólo atrativo. Hoje, todo o sistema converge para o Norte. É óbvio que quando houver os rios funcionando como hidrovias, as ferrovias operando, a coisa mais fácil é escoar a produção pelo Pará, pelo Porto de Itaqui. Usando esse caminho, chegaremos à Ásia em tempo três vezes menor, com grandes navios.

CC: O que vai acontecer sociologicamente da forma como o Brasil se vê?
DN:
O Brasil vai se encontrar e se identificar. Em relação aos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), não há a menor dúvida de que estamos em uma situação infinitamente melhor. Comparemos com a Rússia, que tem problemas de língua, de religião e Vladimir Putin (presidente). O país não resolveu nenhum dos problemas como nós o fizemos. Temos hoje uma Constituição funcionando, com defeitos e vantagens. Do ponto de vista dos direitos humanos, estamos no estado-da-arte. Talvez o projeto seja um pouco ambicioso, porque propôs um welfare state (Estado de Bem-Estar Social), que precisava de 40 mil dólares de renda per capita para funcionar e só tem 4 mil. Com a China, não tem comparação. O país tem de promover um avanço gigantesco. É o exemplo claro de que as instituições defeituosas produzem tanto desenvolvimento quanto as virtuosas. Na Índia, é o mesmo problema. O Brasil está à frente. O que uma nação pretende na verdade? Precisa de autonomia energética, alimentar e, se for possível, militar. Os Estados Unidos perderam a autonomia energética. É ridículo pensar que os EUA vão permitir que exportemos energia para eles. Eles não querem depender de Hugo Chávez (presidente da Venezuela), por que vão depender do Brasil? A China não tem dependência alimentar e energética, mas tem independência militar. A Rússia conservou a autonomia energética e militar e não alimentar. O Brasil está em uma situação bem melhor do que a dos outros. Só precisa de governo, mais nada. Precisa pensar-se 25 anos à frente, permanentemente. Hoje temos de pensar em 2033. O Brasil já foi o país que mais cresceu no mundo entre 1950 e 1984. Só o Japão cresceu mais. E o que é pior: as instituições, a educação e a saúde eram piores. É uma coisa misteriosa.

We Use All 100 Percent of Our Brain

We Use All 100 Percent of Our Brain


Homer: All right brain, you don't like me, and I don't like you.
But let's just get me through this, and I can get back to killing
you with beer.

Brain: It's a deal!

There are many myths about our brains, such as we use only 10 percent of our brain — and many other amazing facts, as revealed in a fascinating new book by Sandra Aamodt and Sam Wang, two leading neuroscientists.

They write in their book that not only that we don't use just 10 percent of our brain, but also that even simple tasks actually produce activity throughout the entire brain.

Many people like this old myth because it gives them a hope that they could do so much more if they could use even a tiny bit of that other 90 percent.

Yawning is often related to sleepiness and boredom but it actually wake up our brain activities. We get more oxygen into our blood system while yawning.

Blind people hear better - this is also a myth, because, when tested, blind people are not better at detecting faint sounds.
But they do have better memory. Since they can't rely on their vision, they constantly rely on their memory and it seams that this improves some other abilities by taking advantage of brain space that isn't being used for vision.

Playing video games practices multi-tasking and this increases one's abilityto pay attention to many things at the same time. In one study, college students who played action games regularly processed information more quickly, could track more objects at once, and had better task-switching abilities. So, allowing your children to play computer games may not be such a bad thing after all.


Another myth about our brain is that we are more intelligent if our brain is bigger - after all, Einstein's brain was no larger than the average person's.

Exercise helps keep your brain fit. Not sudoku or crosswords. In fact, exercise is the single most useful thing you can do to maintain your cognitive abilities later in life; elderly people who have been athletic all their lives do much better mentally than sedentary people of the same age.

Stupid tunes are hard to forget.
There's nothing more annoying than the line of a song playing over and over again in your head. Blame it on your brain's ability to recall sequences. We need to remember sequences every day, from the movements involved in signing your name or in making coffee, to the correct route you need to take off the motorway to get home.
One way is to introduce other sequences that interfere with the reinforcement of the memory. So find another infectious song, and hope the cure doesn't become more annoying than the original problem!

Explosão de Mentos e Diet Coke

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