terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Esqueça 2008

Por Angelo Pavini, de São Paulo

Em um ano como 2008, em que o Índice Bovespa flutuou entre 73.920 e 26.435 pontos, encontrar um fundo de ações que tenha fechado no azul é quase missão impossível. Mas, remexendo nos dados do site Fortuna, em um universo de 1.060 fundos, o Valor encontrou dois que fecharam com ganhos - apesar de algumas ressalvas. O Nossa Caixa é formado apenas por ações da própria instituição, que subiram este ano graças ao anúncio da compra pelo Banco do Brasil. E o Polo Fia, da Polo Capital, é um fundo mais sofisticado, meio fundo hedge, com muitas operações de arbitragem e estratégias que vão além da compra e venda de ações apenas.

Vale então olhar os que perderam menos. Os mais felizes foram alguns fundos de dividendos ou de setores defensivos, como energia e bancos - caso do fundo do Itaú formado por papéis da própria instituição - e alguns fundos concentrados, como RB Fundamental, da Rio Bravo, ou Orbe Value, da Orbe Investimentos. "Não houve uma receita única para se sair melhor na crise", resume Marcelo D'Agosto, do Fortuna.

Entre os que mais perderam, o destaque fica com o fundo alavancado GWI, que acumulava queda de 98% no ano até dia 18, um resultado coerente com sua estratégia, de ampliar os efeitos da tendência dos papéis. Alavancagem foi também o que fez o fundo Santander Vale Mais, da Santander Asset Management, perder 60,89%, mais que os 51% da média dos fundos de ações da mineradora. A carteira podia ter exposição de 120% em Vale. Os fundos Petrobras perdem, na média, 46% no ano até dia 18.

Outra estratégia bastante afetada foi a setorial de construção civil. O segmento passou de vedete da bolsa em 2007 para o que mais perdeu este ano. As estratégias envolvendo ações de menor valor de mercado, ou "small caps" - onde também há um grande número de empresas de construção -, também foram bastante prejudicadas pela crise. Nessa lista, entram também o Geração FIA, do banco Geração Futuro, e o Fama Challenger, da Fama Investimentos.

Os fundos com melhor desempenho foram os que tinham mais papéis defensivos, como dos setores de eletricidade e telecomunicações, que sofreram menos com a crise, explica Ronaldo Patah, da Unibanco Asset Management. Já os com papéis de construção e "small caps" sofreram mais. "A crise pegou 'na veia' o setor de construção, foi o pior da bolsa, seguido pelo de commodities", diz. O motivo é a dependência das construtoras do crédito e a desaceleração da economia, que reduz as vendas de imóveis. "O setor precisa tomar recursos com freqüência, seja emitindo ações ou tomando empréstimos, e essas fontes secaram este ano", lembra. Além disso, essas empresas, a maioria novatas, sofreram pela forte venda de ações por estrangeiros. Um movimento que afetou também as carteiras de "small caps". "Fundos Petrobras, Vale e 'small caps', que foram destaque em 2007, lideram as perdas este ano", diz Patah.

A gestão bastante ativa foi o que fez o Polo FIA fechar o ano positivo, diz Marcos Duarte, sócio da Polo Capital. O fundo, explica, pode ficar mais ou menos comprado em ações. "Diminuímos nossa exposição à bolsa dependendo do cenário - agora, por exemplo, estamos com a maior exposição em ações que já tivemos, de quase 50%, mas em geral ficamos no máximo 20% expostos", diz. O resto da carteira se distribui em diversas estratégias, principalmente de arbitragem - entre setores, entre empresas de um mesmo setor, entre classes de ações - ou em estratégias de consolidação de determinado segmento, onde o fundo ganha com a compra ou venda de uma empresa. A carteira chegou a perder 6% em outubro, mas se recuperou. "Perdemos muito dinheiro com Nossa Caixa, construtoras, e depois ganhamos bastante com telefonia, aí perdemos em bancos", diz Duarte. "Este ano foi uma estrada esburacada, cheia de bandoleiros e índios, mas estamos otimistas para o ano que vem", diz.

A crise deste ano não foi capaz, porém, de tirar o brilho das carteiras dos últimos cinco anos. Observando os fundos de ações a partir de 31 de dezembro de 2003 - depois do ajuste à forte queda ocorrida em 2002 durante a campanha presidencial -, há várias carteiras bem acima do Ibovespa. Um exemplo é o fundo Tempo Capital, do ex-diretor do Banco Central Pedro Bodin. E muitas carteiras de ações da Petrobras.

No CS IBX Premium, a estratégia para aumentar os ganhos em cinco anos foi a concentração. "No momento, temos 15 papéis, de grandes empresas com liquidez, o que nos permite mudar a estratégia de acordo com o cenário macroeconômico", diz Glauco Cavalcanti, gestor de renda variável do Credit Suisse. Se o cenário é otimista, a carteira pode ficar um pouco alavancada, até 125%. "Mas no momento estamos 95% comprados em ações", diz. Segundo ele, a carteira nunca esteve tão diluída, em vários setores. A preferência são bancos, elétricas e mineração.

Concentrar e mudar a estratégia do fundo no curto prazo também foi o que garantiu ao Bradesco Selection ser destaque no período de cinco anos. Ele pode ter no máximo 20 ações, sendo que nenhuma com mais de 20% da carteira, explica Herculano Anibal Alves, superintendente de renda variável da Bradesco Asset Management (Bram). "Se hoje achamos que um papel não irá bem pelo cenário que traçamos, trocamos", diz ele. Isso exige agilidade, uma vez que a carteira tem um patrimônio de R$ 114 milhões. Hoje, são 19 papéis e a maior concentração é no setor de bancos, com 21% do total. A posição de dinheiro em caixa do fundo também varia. Em dezembro, quando a bolsa se recuperou, a parcela em dinheiro subiu para 15%, mas agora, com a queda do mercado, voltou a cair, com o fundo comprando mais ações a preços atrativos. "É um fundo fundamentalista, mas olha também o curto prazo, não dorme no ponto", afirma Alves. Outro fundo da Bram que está bem de 2003 para cá é o Bradesco Petrobras. A carteira, apesar de formada apenas por papéis da estatal, tem uma gestão ativa, aumentando a parcela em dinheiro quando a expectativa é ruim para as ações.

A cautela é unânime entre os gestores de fundos de ações com relação ao próximo ano. Apesar de muito lampejos de otimismo, a maioria dá prioridade para os chamados setores defensivos, que não dependem tanto do cenário econômico local ou internacional. Marcos Duarte, da Polo Capital, se diz otimista com o ano que vem. "Muitos fundos estrangeiros estão com problemas de resgates, vendendo ações a qualquer preço, e isso cria oportunidades para quem tem dinheiro", diz. Duarte vê um quadro de desaceleração na economia local e internacional, mas "tem tanta coisa abaixo do preço de reposição do negócio e com fluxo previsível de geração de caixa que dá um conforto muito grande", diz.

Parte substancial da bolsa, porém, vai sofrer, pois é ligada a commodities e, para elas, o cenário não é dos mais auspiciosos pelas dificuldades esperadas para as economias internacionais. Duarte observa ainda que os preços de ações de alguns setores já anteciparam fortes perdas. "Todos odeiam construtoras, bancos médios, commodities, e esses papéis acabam tendo um potencial de alta maior se o cenário for um pouquinho melhor." Para ele, empresas com maiores dificuldades ou que quase quebraram, quando derem a volta por cima, subirão mais na bolsa.

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